Aids completa 30 anos em Londrina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de janeiro de 2015
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Londrina - Em 2015, Londrina está completando três décadas do primeiro caso de aids na cidade. Embora até hoje não exista uma cura, na época os pacientes não possuíam nem perspectiva de vida e muitos morreram por falta de medicamentos eficazes para tratar os sintomas. Uma das pacientes com o HIV mais antigas de Londrina concedeu uma entrevista para a FOLHA, com a condição de não ser identificada. Ela foi diagnosticada há 25 anos e relata que foi infectada pelo próprio marido.
"Minha primeira transa foi com ele e ele também foi meu único namorado até quando fui diagnosticada. Na época eu estava grávida e uma semana antes do bebê nascer ele parou de mexer e quando fui ao HU (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina) os médicos constataram que o bebê estava morto. Recebi alta, e na mesma época minha irmã também estava grávida e o médico que fez o pré-natal dela começou a perguntar a ela se eu usava drogas ou se possuía muitos parceiros sexuais, até que ele pediu para que eu procurasse o HU", relatou.
Como tinha perdido o bebê recentemente, ela evitou retornar ao hospital, pois acreditava que não tinha o que fazer ali. "Naquela época eu nem sabia o que era o HIV. Esse tipo de assunto passava longe de casa. Mas um dia retornei ao HU, fiz os exames e o resultado foi dado por um médico que me atendeu de uma maneira bem ríspida. Como o HU é um hospital escola, vários alunos ficaram olhando para a minha cara. Ele me orientou que eu me cuidasse, que passasse a utilizar o preservativo nas relações sexuais e pediu que meu marido fizesse os exames", detalhou.
O seu marido também apresentou o resultado positivo. "Provavelmente ele me infectou antes de nos casarmos", apontou. Ela revelou que logo o marido sofreu um acidente e acabou acamado. "Fiquei cuidando dele por cinco anos e depois ele morreu." A viúva relembra que desde o início do tratamento a luta para conseguir medicamentos de ponta no combate à aids era difícil. Para exemplificar, ela relembra de um episódio em 1996, no qual cerca de 50 pessoas foram ao Calçadão de Londrina reivindicar o coquetel de medicamentos para combater os sintomas da doença. "Me recordo que algumas pessoas ficaram assustadas com a passeata, e outras aderiram ao movimento."
A viúva conta que, desde que foi diagnosticada, não sentiu tanto o preconceito das pessoas. "Um dos motivos é que eu não me exponho. Somente a minha família e alguns amigos sabem da minha condição. Minha família me apoiou desde o início, talvez porque eles perceberam a dor de ter perdido o meu filho e meu marido", explicou.
Atualmente ela toma cinco tipos de remédio para combater os sintomas da doença. "O coquetel foi um marco no nosso tratamento e para Londrina também. A cidade foi uma das primeiras a adquirir e ministrar os medicamentos combinados. Antes disso, somente Santos havia adquirido e ministrado o coquetel no Brasil inteiro. Se não fosse ele, eu não estaria aqui. Quando eu usei pela primeira vez, foi emocionante. Eu chorei muito. Foi ali que eu soube que iria ter uma vida melhor. Dou graças a Deus por ter tido acesso a esse medicamento", afirmou.
Ela revelou que não é fácil conviver com a aids e alerta que, com o advento do coquetel, muitas pessoas deixaram de se cuidar por acharem que é fácil conviver com a doença. "Muitos estão abusando. O que posso dizer é para que as pessoas façam sexo seguro. O mundo está aí e não é fácil conviver com os efeitos colaterais de ingerir os medicamentos contra a aids", alertou.
Às mulheres, ela aconselha desconfiar sempre e também utilizar a camisinha. "Quando você vê, já foi. A responsabilidade é dos dois." Ela revelou que, nos 25 anos que possui o vírus, este ano foi a primeira vez que sentiu os sintomas da doença em função de uma infecção intestinal. "Estou tendo que tomar mais dois medicamentos por conta disso", explicou.
A viúva revelou que, desde que recebeu o coquetel pela primeira vez, acreditou que poderia se curar. "É muito bom ter esse remédio. Com ele vou viver até quando Deus quiser."
Leia mais na página 2.


