Agulha, linha, talento e Ezídio faz um bom terno
Guto Rocha
De Londrina
O cabo da enxada ou a linha e a agulha? No dia 17 de março de 1950, Antônio Ezídio da Silva, então com 14 anos, optou pelo segundo instrumento de trabalho para seguir a vida.
Mas, no início, enxada, agulhas e cadernos dividiam o dia do menino, que pela manhã ia para a lavoura trabalhar com o pai no cafezal que a família tocava onde hoje está o Estádio do Café. Depois ia para o colégio e à tarde para o ateliê do mestre Manoel Carvalho.
A escolha pela segunda opção fez com que Ezídio apressasse o aprendizado do ofício de alfaiate. Em apenas três meses o aprendiz já costurava a sua primeira calça, feita para o seu pai, que perdeu um ajudante na lavoura, mas garantiu o seu guarda-roupa. Acho que ele gostou, porque depois fiz muitas calças para ele, comenta.
Mas a troca da enxada pela agulha não o deixou livre dos calos. Ezídio conta que a primeira coisa que o aprendiz tem de fazer é amarrar o dedo. Ele explica que isso deixa o dedo treinado para que tenha força na hora de empurrar a agulha contra o tecido.
Pode ser o pano mais grosso que a gente consegue costurar, afirma. O peso da velha tesoura também deixou calos. Mas agora o instrumento foi aposentado e substituído por uma tesoura elétrica.
Em 1959, Ezídio abriu o seu próprio ateliê na Rua Araguaia, na Vila Nova (região central de Londrina). Ele conta que a sua primeira máquina, uma Pfaff de 1931, foi presente da sogra.
Ela me deu a máquina para ajudar a tratar de sua filha. Isso é que é genro querido, brinca o alfaiate. Dois anos depois, Ezídio se mudou para o Edifício Autolon, no centro da cidade, onde está até hoje.
De lá para cá o nome Ezídio virou marca de elegância em Londrina e em outras partes. Vem gente até do Rio de Janeiro fazer roupas aqui, comenta.
Nestes quase 50 anos de profissão, o alfaiate conta que já fez roupas para muita gente famosa, como artistas, políticos, empresários. Mas ele prefere não nominar nenhum cliente em especial.
Ezídio se lamenta por causa da falta de interesse dos jovens pela profissão de alfaiate. Ele acredita que o ofício, que tem data comemorativa no dia 6 de setembro, está em extinção. Hoje trabalhamos para gordos, gente com braços ou pernas compridas. E existem grandes confecções que fazem roupa que acaba ficando mais barata do que o nosso trabalho, que é artesanal, diz.
Mas ele observa que muita gente que compra paletó ou calça pronta acaba levando a peça para ajustar as medidas em seu ateliê. Tenho um profissional que só cuida disso.
Ele afirma que mais de 15 aprendizes passaram pelo seu ateliê, mas poucos seguiram a carreira. Uns dois, se muito, comenta. Nem mesmo seus dois filhos tiveram interesse em trabalhar com o pai. Um deles sabe fazer calça, observa.
Mas nem tudo está perdido. Ezídio conta orgulhoso que seu neto, Antônio Ezídio da Silva Neto, de 17 anos, é aprendiz de alfaiate desde os 10 anos. Ressalta, porém, que seu neto também vai fazer faculdade. Ter uma profissão é importante, mas é preciso ter um pouco de cultura, saber falar bem, senão como é que ele vai atender os doutores, diz.
Ezídio também teve preocupação com sua formação profissional. Além das lições que teve durante os anos que trabalhou como aprendiz do seo Manoel, o alfaiate participou de vários cursos de especialização e aperfeiçoamento em São Paulo e Belo Horizonte. Se a gente fica parado, não acompanha a evolução e fica para trás, aconselha.
Entretanto, o alfaiate reclama que algumas coisas que evoluíram não ficaram melhores. É o caso dos tecidos que são utilizados para a confecção de ternos. Segundo ele, hoje o mercado oferece basicamente a microfibra, que na sua opinião é inferior às cambraias de linho da Santa Branca, Eskurak ou Aurora, que não existem mais.
A microfibra é muito perigosa, ela pode estragar facilmente na hora de passar o ferro. Temos que usar dois panos por cima da roupa para poder passar. Entretanto, ele informa que a evolução do ferro de passar, que antes era à brasa, permitiu esta troca do tecido.
Outra paixão de Ezídio é o futebol. Corintiano roxo, ele já foi jogador, técnico e presidente do time 13 de Maio, na Vila Nova. Fez parte da Liga de Futebol de Londrina durante 25 anos.
Em 1995, o time de futebol de salão que dirigia venceu o Torneio Ilson Bussadori. A conquista está eternizada em uma foto do time pendurada na parede do ateliê.
Hoje, o time que dirige é formado por cinco alfaiates: Antônio Galera, Dorival Lima, João Franco, Waldir Trovó e Jorge Massazo. O mais novo está comigo há cinco anos e o mais velho desde o começo, conta.
Uma coisa que todos têm em comum são os óculos. Ezídio afirma que o objeto faz parte da profissão. O destino do alfaiate é usar óculos um dia. A profissão exige muito dos olhos, explica.
PERFIL
Nome: Antonio Ezídio da Silva
Idade: 63 anos
Profissão: alfaiate
Tempo de profissão: 50 anos
Herança: Ezídio ensina a profissão para um dos netos
Paixão: futebol
Time: Corinthians





