Osmani Costa
De Londrina
Quem vê a mata e a várzea com taboas protegendo a nascente do Ribeirão Lindóia não imagina que suas águas – que cortam a zona norte da cidade no sentido oeste-leste – sejam castigadas por esgotos domésticos clandestinos e restos de produtos industriais deste o início de seu curso. O Lindóia é o maior e mais importante ribeirão daquela região, passando por dezenas de conjuntos habitacionais e recebendo água de nove córregos e dois outros ribeirões – o Quati e o Água das Pedras –, até desaguar no Ribeirão Ibiporã, na divisa com o município vizinho.
Esgoto doméstico clandestino e restos de produtos industriais castigam ribeirão, que atravessa dezenas de conjuntos habitacionais e recebe água de nove córregos e dois outros ribeirões
O Lindóia nasce no extremo-oeste de Londrina, quase na divisa com o município de Cambé, a cerca de 2 km do pool de combustíveis, na gleba Jacutinga. Sua cabeceira, de difícil acesso, está bem protegida por mata ciliar e uma várzea de tamanho razoável. No início, a quantidade de água é pequena, ela tem boa aparência e o leito é estreito.
Os problemas começam poucas centenas de metros abaixo da nascente, próximo à ponte do bairro conhecido como Maria Lúcia/Cilo 3, numa referência a algumas pequenas indústrias instaladas depois do pool de combustíveis, na margem direita do Ribeirão Lindóia. Nesta primeira parte, cujo único acesso é por uma rua de terra e por trilhas na mata, estão localizadas várias chácaras.
Muitas delas têm casas de alvenaria construídas na faixa mínima de 30 metros ao lado das margens, que é de preservação ambiental permanente. A direção da Companhia de Habitação (Cohab) de Londrina, que iniciou na semana passada o cadastramento dos chacareiros, estima que são aproximadamente 40 as chácaras em situação irregular.
O presidente da Cohab, Assad Jananni, explica que após o cadastramento terá início a fase de negociação para remoção dos moradores daquela área. ‘‘São invasores, que estão ilegalmente no local há vários anos. Temos que analisar a melhor proposta de transferência das famílias para assentamentos. Lá, elas não poderão continuar, porque haverá a instalação de uma indústria em terreno próximo’’, comenta, lembrando que a empresa ficará fora da faixa de preservação em terreno da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel).
O pedreiro desempregado João Francisco dos Santos, também conhecido como ‘Palhaço Pirulito’, mora com dois irmãos em uma das chácaras há cerca de 5 anos. Ele se diz preocupado com a possibilidade de despejo e denuncia a poluição das águas do Lindóia. ‘‘O pessoal da Cohab veio dizendo que vamos ser tirados daqui, mas não temos para onde ir. Não vamos aceitar sair daqui sem ter um outro lugar para morar.’’
João dos Santos mostra uma grande fossa a céu aberto, bem perto da margem do ribeirão, onde está estocado esgoto sanitário domiciliar trazido por ligações clandestinas. ‘‘Isto aqui é uma fedentina. Com a enxurrada, toda esta porcaria que vem lá de cima é levada para o rio. E as crianças ficam nadando aí perto da ponte, sujeitas a muitas doenças’’, ressalta o chacareiro, lembrando que há um mês dez patos que ele tinha morreram após tomar a água do Lindóia. ‘‘Acho que ela estava contaminada por restos químicos que vem das indústrias lá de cima.’’
O gerente de Operações da Sanepar em Londrina, Nelson Okano, explica que a empresa não tem rede coletora de esgotos naquela área pouco habitada da cidade. ‘‘Não temos conhecimento destas ligações clandestinas e desta possível poluição ao ribeirão. Nunca recebemos nenhuma denúncia neste sentido. Sabemos que os moradores daquelas chácaras usam o sistema de fossas sépticas’’, comenta.
Depois, ao longo do seu curso, o Lindóia tem pouca mata ciliar protegendo suas margens; normalmente com pastagens ralas onde são criados cavalos e vacas. Muitos chacareiros usam a faixa de proteção para o plantio de hortaliças. A partir do Parque Ouro Verde – atrás do Estádio do Café –, o ribeirão passa entre muitos conjuntos habitacionais e loteamentos recentes, até chegar no fundo do novo parque industrial, onde estão a Dixie Toga e a Atlas. Nesta parte, a faixa de proteção tem servido como depósito de lixo doméstico e de diferentes entulhos. Mesmo assim, moradores da região ainda conseguem pescar pequenas tilápias, acarás e bagres no Lindóia, principalmente nas lagoas atrás do Ouro Verde e do Conjunto Milton Gavetti.

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