Mário CesarRua interditadaMoradores resolveram fechar o acesso à zona norte e ameaçam abrir um buraco para captar águaAs minas d’água no jardim Pinheiro, também conhecido como ‘‘morro da Formiga’ estão contaminadas. A última coleta realizada pela Prefeitura de Londrina constatou 1.600 coliformes fecais por 100 mililitros de água. Mas 76 famílias, que ocupam desde novembro passado o local, têm que recorrer a essas minas. Entre os sem-teto que ocupam o fundo de vale, próximo ao conjunto Parigot de Souza 2, há 120 crianças.
Ontem pela manhã, as famílias que ocupam a área interditaram a avenida Francisco Gabriel Arruda, que dá acesso à zona norte de Londrina, e também a avenida Pedro Carrasco Alduan, que passa em frente à área invadida. Eles reivindicam, há mais de três meses, a instalação de uma torneira comunitária que leve água tratada ao local.
No morro da Formiga, há muitas crianças doentes, que precisam ser constantemente internadas devido à diarréia, vômito e febre. Portaria do Ministério da Saúde determina que, para o consumo, a água deve estar livre de coliformes fecais.
Revoltados com o problema, os moradores decidiram fechar as ruas usando galhos, móveis velhos e pedras. ‘‘Queremos água tratada, somos gente, temos esse direito’’, gritavam os moradores, concentrados na rotatória que dá acesso à zona norte.
Eles exibiam num vidro uma amostra da água cheia de vermes. ‘‘Não podemos mais aguentar essa situação. Nossas crianças estão todas doentes e os adultos também’’, disse Velidiane Brito, 24 anos, dois filhos. O mais novo foi internado duas vezes em menos de 30 dias com diarréia. ‘‘O médico disse que o problema é a água. Mas o que a gente pode fazer?’’
Todas as crianças apresentam manchas brancas pelo corpo, causadas, segundo as mães, por verminoses. Os adultos também sentem as consequências de tomar a água contaminada.
‘‘É só beber e ir pro banheiro. Dá até tontura e dor de cabeça’’, disse Marlene Cardoso dos Santos. Segundo ela, os moradores só tomam água limpa quando chove. ‘‘Temos que pegar a água da chuva.’’
A maior parte dos moradores da ocupação está desempregada. As famílias moravam em casas alugadas ou junto com parentes. Enquanto aguardam a destinação de um terreno pela Prefeitura, eles esperam apenas a água tratada.
‘‘Cansamos de correr atrás. Se a Sanepar não vier aqui até a tarde vamos fazer um buraco no chão para ter a água direto do encanamento’’, ameaçavam os moradores. ‘‘Água não é luxo, é necessidade. Não queremos de graça, vamos pagar por ela’’, dizia Carlos Roberto Júlio.
A doméstica Antonia de Fátima da Silva conta que só não perdeu ainda o emprego porque sua patroa é compreensiva. Ela tem faltado muito ao trabalho para cuidar dos filhos doentes. ‘‘O que a gente tem gastado com remédio dava para pagar três contas de água.’’
Por causa do bloqueio das avenidas, os carros que seguiam em direção aos bairros da zona norte tiveram que fazer desvio por uma estrada de terra. Os policiais militares foram até o local do protesto e orientaram os moradores para que fizessem um movimento pacífico. O sargento Lucas disse: ‘‘Os ânimos já estiveram exaltados e eu alertei que se houver algum incidente eles serão responsabilizados’’.

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