Ney de SouzaAçãoManifestantes seguiam em duas frentes e iam
roçando a vegetação da estrada tomada pelo matoSERRANÓPOLIS DO IGUAÇU - Cerca de 800 agricultores do Extremo-Oeste e Sudoeste entraram no Parque Nacional do Iguaçu ontem à tarde e começaram a roçar o trecho onde até 1986 havia a ‘‘Estrada do Colono’’, fechada por decisão da Justiça. A ação, que simbolizaria a ‘‘reabertura’’ da estrada , foi deflagrada de surpresa, sem nenhuma divulgação prévia. A manifestação continuou até o início da noite e prosseguirá hoje. O objetivo é chamar atenção para a reabertura formal e implantação de uma estrada-parque.
A ação é irregular, já que existe uma decisão judicial e por ser o parque intangível, declarado patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os agricultores foram apoiados pela Associação de Integração Comunitária Pró-Estrada do Colono (Aipopec) e prefeitos da região. A roçada começou em duas frentes, uma partindo de Serranópolis do Iguaçu (oeste do parque) e outra de Capanema (sudoeste), pontos extremos da estrada. Os agricultores esperam concluir a ‘‘reabertura’’ hoje, caso não sejam impedidos pela Polícia Florestal.
Policiais compareceram ao local mas não tentaram impedir a roçada porque aguardavam alguma manifestação superior ou da Justiça. Eles foram recebidos por uma ‘‘comissão de frente’’, composta pelos prefeitos de Serranópolis do Iguaçu, Medianeira, Missal e Santa Terezinha de Itaipu, além do deputado estadual Irineu Colombo (PT). Todos defendem a reabertura da estrada e estão empenhados na preparação de uma grande manifestação terça-feira, com a concentração de milhares de pessoas em toda a área.
Ney de SouzaJulio Gonchorosky
Embora envolva aspectos legais e ambientais, a questão da estrada tem motivado revolta das comunidades próximas desde o fechamento porque ela era vital na ligação entre o Oeste e o Sudoeste. O trecho tem pouco mais de 17 quilômetros e foi aberto há mais de 50 anos por colonos que migraram do Extremo-Sul do País. ‘‘Nunca se ouviu falar que a estrada fosse fator de risco ao parque’’, diz o coordenador da Aipopec, Marcos Pagani.
A Justiça atendeu pedido do então vice-presidente do PTB de Foz, Arnóbio Ricardo da Silva, que argumentou haver risco à integridade do parque porque o governo do Estado estava iniciando a pavimentação. A decisão foi uma liminar que persiste até hoje, sem que tenha havido julgamento do mérito da ação. Com o fechamento da estrada, a ligação entre o Oeste e o Sudoeste passou a ser feita por Cascavel, aumentando o trajeto em 120 quilômetros.
Ontem, a Folha sobrevoou de helicóptero toda a extensão da estrada. Os manifestantes seguiam em duas frentes. À medida que as colunas avançavam, os grupos iam roçando a vegetação da estrada tomada pelo mato. Pelo menos duas caminhonetes transportavam pessoas dentro do parque. Os manifestantes portavam bandeiras do Brasil e acenavam com chapéus.
Nas extremidades do techo, formaram-se grandes ‘‘estacionamentos’’ com carros de manifestantes. No município de Capanema, o grupo montou um acampamento na margem do Rio Iguaçu, dentro do parque. Ontem à tarde, o acampamento já tinha cinco barracos de lona. Uma faixa denominava o local de ‘‘Acampamento Amigos do Parque’’.
Representantes do Ibama, da Justiça Federal, da Polícia Federal e da Polícia Florestal sobrevoaram a área no final da tarde. Eles estudavam uma maneira de retirar os manifestantes e punir seus líderes. ‘‘Foi, no mínimo, uma atitude precipitada’’, disse o diretor do parque, Julio Gonchorosky. Segundo ele, na segunda-feira a Aipopec apresentou sua proposta de reabertura da estrada. ‘‘Ficamos de analisá-la, mas eles não esperaram a resposta.’ Segundo Gonchorosky, ao roçar os arbustos no leito da estrada os invasores infringiram a lei ambiental, que protege a vegetação dos parques nacionais.

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