Alexandre Sanches
Enviado a Primeiro de Maio
Duas famílias de agricultores de Primeiro de Maio (61 km ao norte de Londrina) lutaram ontem no Fórum local para evitar a reintegração de posse dos seus imóveis, pedida pelo Citibank, como pagamento por empréstimos contraídos em 1985. A reintegração de posse deveria ter sido feita às 8h30 de ontem. Orlando Nascimento, 58 anos, uma das vítimas, afirmou que prefere ver seu imóvel, de 58 alqueires, ‘‘ocupado por sem-terra do que entregá-lo para os bancos’’.
Ele e o agricultor Antônio Alves de Oliveira, 59 anos, contraíram financiamentos em 1985 da financeira Contact, com sede em Araçatuba (SP), para o plantio de lavouras. Orlando Nascimento quitou a dívida no mesmo ano, mas houve outros financiamentos para a compra de tratores de esteira, que ele alega não ter adquirido e que nem teve acesso ao dinheiro. As notas fiscais dos veículos foram emitidas em nome de outras pessoas.
‘‘Na época, os funcionários da Contact de Assis (SP) vinham buscar os documentos e as assinaturas. Assinamos muitas coisas que a gente nem se lembra direito’’, afirmou Nascimento. Entre estes documentos, alguns cheques foram endossados, sob alegação que eram para pagar contas pendentes com o banco responsável pelo repasse do dinheiro, o Citibank.
Antônio Oliveira afirma que não conseguiu pagar o empréstimo, mas que o refinanciou por três vezes. Porém, quando entrou com a ação judicial, não constava na financeira o contrato original, somente dos dois últimos refinanciamentos. Por causa desta dívida, ele já perdeu uma casa em Primeiro de Maio e, agora, o sítio de 36 alqueires onde moram cinco famílias que dependem da terra para sobreviver. ‘‘O sítio é tudo o que eu tenho. Eu e as outras famílias tirávamos nosso sustento da terra e trabalhávamos para outros agricultores. Agora, não temos nem onde ficar’’, desabafou. Ele não soube informar o valor da dívida.
Tanto Oliveira quando Nascimento alegam terem sido vítimas do golpe da hipoteca, no qual os agricultores dão os imóveis como garantia da dívida. ‘‘Não contraímos mais dívidas além daquelas que obtivemos oficialmente’’, ressaltou Orlando Nascimento, que agora se define como sem-terra. Antônio Oliveira disse que a financeira e o banco só cobraram a parte deles, não querendo realizar nenhum acordo para quitação da dívida.
Ontem não houve acordo no fórum. Hoje à tarde, os advogados da financeira e os dos agricultores vão protocolar um acordo no Fórum de Primeiro de Maio, solicitando mais prazo para que as famílias possam arrumar outro imóvel e fazer a mudança sem problemas. Os advogados dos agricultores também vão tentar garantir, através de um recurso, que uma casa na cidade, da família Nascimento, seja preservada e retirada dos autos de reintegração de posse.

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