Agricultores hipotecam bens e se dizem lesados
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de abril de 1998
Alexandre Sanches 
Um grupo de agricultores de Primeiro de Maio (61 km ao norte de Londrina) está brigando na Justiça Federal para evitar que seus imóveis, dados em garantia de empréstimo bancário, sejam levados a leilão pelo Citibank - Crédito, Financiamento e Investimento S.A. Eles argumentam que foram lesados pela empresa Contact - Financiamentos, de Assis (SP), representante do Citibank na época do empréstimo.
A Justiça Federal de Marília (SP) determinou que a Polícia Federal de Bauru (SP) investigue a denúncia. Um dos agricultores que se diz lesado é Orlando Nascimento. Ele admitiu ter feito dois empréstimos bancários, um em 1985 - quitado no mesmo ano - e outro em 1986, cuja dívida não conseguiu quitar por causa dos altos juros praticados pelo mercado naquele ano.
Como não tinha fiador, Nascimento hipotecou os imóveis como garantia da dívida. O problema é que meus imóveis foram tomados enquanto eu pagava a dívida, denunciou. Ary Cândido de Oliveira, 63 anos, fez um empréstimo em 1986, no valor de Cz$ 200 mil (na época, vigorava o cruzado). Segundo ele, quando tentou quitar a dívida descobriu que foram cobrados Cz$ 100 mil a mais.
Mas, em vez de recorrer juridicamente contra o valor apresentado, Oliveira disse que tentou pagar a dívida. O problema é que os juros foram ficando pesados e quando dei por mim, meus imóveis já estavam todos na Justiça, afirmou.
Os dois agricultores alegam não terem ido a Assis (SP) ou a Araçatuba (SP) - sede da Contact - para fazer o financiamento. Funcionários da empresa os procuraram em Primeiro de Maio, levando todos os documentos necessários para os empréstimos. Pelo menos outros cinco produtores fizeram o mesmo financiamento naquele ano.
Oliveira mora atualmente em Londrina, em um pensionato. Sem conseguir financiamento para a lavoura, vem trabalhando em açougues e outros tipos de serviços para poder sobreviver.
Orlando Nascimento afirmou que, após assinar a papelada do financiamento, foi para a Bahia, onde possui uma fazenda de café. O funcionário aproveitou minha ausência, pediu procuração e mandou que minha filha assinasse umas duplicatas. Hoje eu estou pagando por esta dívida.
No inquérito que tramita em Bauru constam as duplicatas assinadas pela filha de Oliveira. Tanto Nascimento quanto Oliveira perderam ações na Justiça comum, mas esperam ter mais sorte na Justiça Federal.
Funcionários da Contact foram ouvidos pela Polícia Federal. Documentos cedidos pela empresa e pelo Citibank foram acrescentados ao inquérito. Nascimento e Oliveira acreditam que muitos agricultores de municípios do sul do Estado de São Paulo estão na mesma situação deles.


