Um movimento migratório que, há cerca de 20 anos, representou a esperança de uma vida melhor para brasileiros expulsos do campo, começa a fazer o caminho de volta, desta vez com os contornos de um dramático êxodo de desterrados. Pelo menos 5 mil brasiguaios retornaram ao País e se abrigaram no Paraná só nos últimos três meses. Quem emigrou como arrendatário ou pequeno agricultor, agora volta à sua pátria como sem-terra ou favelado.
Brasiguaio é o termo binacional criado a partir da segunda metade da década de 70 para definir os trabalhadores rurais brasileiros - principalmente dos Estados do Sul - que emigraram para o Paraguai em busca de melhores condições de vida. Segundo levantamento do governo paraguaio, entre 1975 e 1985 cerca de 400 mil brasileiros ocuparam e desbravaram toda a faixa leste do país vizinho, nas fronteiras com Brasil e Argentina.
O processo de ‘‘latifundiarização’’ das áreas agrícolas, provocado pela mecanização das lavouras e a concentração das terras nas mãos de grandes proprietários, aliado à falta de uma política para o pequeno produtor rural e ao alagamento de grandes áreas produtivas por represas de hidrelétricas - principalmente Itaipu -, provocaram a ‘‘expulsão’’ dos colonos brasileiros para a nova fronteira agrícola.
Vinte anos depois, esses mesmos colonos são vítimas dos mesmos fatores que desencadearam o primeiro ciclo migratório. Hoje, as áreas agrícolas do leste paraguaio passam por um gradativo processo de concentração fundiária e mecanização. Grandes proprietários rurais, entre os quais há muitos brasileiros, compram áreas menores e dispensam bóias-frias, arrendatários e empregados para substituí-los por tratores e colheitadeiras modernos.
‘‘Os pequenos agricultores não conseguem suportar os custos da mecanização das lavouras e acabam vendendo as terras’’, explica Valírio Rodrigues de Freitas, brasiguaio de 35 anos, que coordena a Pastoral do Migrante em San Alberto (a 88 quilômetros da fronteira com o Brasil). Ele calcula que, na área de concentração de brasiguaios, pelo menos 20 mil arrendatários e pequenos proprietários já deixaram o campo.
Além da questão econômica, os brasiguaios estão sendo afetados pelo recrudescimento da política imigratória paraguaia. Segundo estimativa da Pastoral do Migrante brasileira, na região da fronteira há pelo menos 20 mil brasiguaios à espera de um documento que possa garantir a permanência no país vizinho. Mas a esperança de obtê-lo diminui a cada dia.
Expulsos da terra e sem direito à cidadania, os brasiguaios pobres têm duas opções: mudar-se para as mal estruturadas cidades paraguaias, onde não há emprego, ou voltar ao Brasil. No segundo caso, as opções também são duas: as favelas das grandes cidades da fronteira, como Foz do Iguaçu, ou os acampamentos de sem-terra comandados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nas regiões Oeste e Noroeste do Paraná.
Em 1995, Foz do Iguaçu tinha 42 favelas. Hoje, depois do início do ‘‘êxodo brasiguaio’’, já há na cidade 75 favelas, nas quais moram cerca de 40 mil pessoas. Nos núcleos de barracos invadidos desde os últimos cinco anos, os ex-brasiguaios já representam mais de 5% dos moradores. Nos acampamentos do MST no Paraná, eles são quase 15% do total.
Para a freira católica Zenaide Guarnieri, coordenadora da Pastoral do Migrante em Foz do Iguaçu, a volta dos brasiguaios é um processo irreversível e preocupante. ‘‘Eles seguem um raciocínio simples: já que vão morrer de fome lá, preferem morrer de fome na pátria deles’’.

mockup