Agricultores familiares fazem greve de fome contra juros altos
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segunda-feira, 22 de junho de 1998
Anna Camanducaia 
Trinta agricultores familiares entraram em jejum ontem de manhã, em frente à Catedral Metropolitana de Curitiba, para protestar contra o pacote agrícola anunciado pelo governo federal no dia 17. Hoje, os agricultores devem transferir o ato para o Palácio Iguaçu.
A principal reclamação é de que os juros do crédito rural ainda estão altos para a maioria dos agricultores. Os juros baixaram de 6,5% para 5,75% ao ano, mas ainda são acessíveis a apenas cerca de 15% dos agricultores no Paraná, segundo o dirigente do departamento rural da Central Única dos Trabalhadores, Marcos Rochinski.
Hoje, existem 400 mil propriedades de agricultores familiares no Paraná. Deste total, 70% são considerados agricultores periféricos - pessoas que têm renda bruta anual inferior a R$ 8 mil e que, por isso, não têm como pagar os juros do crédito. Para estes agricultores, os juros deveriam ser zero, e ainda poderia haver subsídio de 50%, dependendo do caso, disse Rochinski.
Na safra passada, só 42 mil contratos foram realizados. O novo pacote não deve mudar este quadro. Mais de 80% dos agricultores continuam fora de qualquer política de crédito, diz. Se observarmos o mapa de miséria do Estado, veremos que boa parte dos considerados indigentes estão no meio rural.
Rochinski disse que, se o pacote não for modificado, haverá aumento do êxodo rural e inchaço da periferia das cidades. A consequência é o empobrecimento dos pequenos municípios. Além disso, a produção poderia aumentar em 20% se recebesse os investimentos.
O governo anunciou a liberação de R$ 2,4 bilhões pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). A Coordenação Estadual das Entidades da Agricultura Familiar disse que o valor nem se compara ao que o Banestado está negociando com o Banco Central para pagar suas dívidas (R$ 3,5 bi) ou ao dinheiro solicitado para resolver os problemas das cooperativas (R$ 3,4 bi).
Além disso, afirmou que, no ano passado, apenas 55% dos recursos disponibilizados para a agricultura familiar foram realmente aplicados - o correspondente a R$ 1,6 bilhão.
Apoio - O bispo auxiliar da Arquidiocese de Curitiba, D. Ladislau Biernaski, fez uma celebração na Catedral, ontem pela manhã, em apoio ao protesto dos agricultores. O Paraná é um estado agrícola que sempre se caracterizou pelos pequenos proprietários, disse D. Ladislau. A maioria deles não tem acesso aos recursos do governo.


