Irene da Silva, 50 anos, espera a morte sentada num banco da Praça Tirandes, centro de Curitiba. Chorando por que os filhos lhe roubam o dinheiro da aposentadoria, ela se recusa a receber atendimento do FAS, onde afirma ter sido roubada em R$ 50,00. ‘‘Isso não ocorreu’’, afirma o diretor da FAS Erotildes Xavier. Segundo ele, Irene tem problemas mentais.
Apesar disso, ao conversar com a Folha, ela parecia lúcida e deu respostas coerentes. Agricultora natural de Monte Alegre, Irene foi para as ruas há 14 anos, depois da morte do marido. Tem duas filhas, que residem na Região Metropolitana de Curitiba, mas não moram com elas porque seria rejeitada. ‘‘Elas não me querem’’, disse.
Para sobreviver, Irene pede comida e cuida dos carros, quando outros flanelinhas lhe permitem. Com lágrimas nos olhos, ela lembra do irmão, Sebastião da Silva, que há seis meses tem ficado com um salário mínimo da aposentadoria que ela recebe por invalidez. Silva, segundo Irene, tem cerca de 40 anos, é pintor e usa o dinheiro da aposentadoria para beber.
Resistente a qualquer tipo de ajuda, à exceção das esmolas, Irene é um caso típico dos mendigos crônicos e dificilmente sairá das ruas. Na FAS, uma ficha, usada para acompanhar atendimentos, revela que Irene esteve no órgão pela primeira vez em 18 de junho de 1995. De lá para cá, ela foi atendida uma série vezes - a última em janeiro deste ano. ‘‘De manhã fez um escândalo e pediu para ser liberada’’, afirma a ficha.
Xavier negou, porém, que o escândalo tivesse ligação com o suposto roubo dos R$ 50,00. Segundo ele, Irene tem os valores afetados pela experiência e dificuldades vividas na rua, como fome e frio. Situações que fazem parte da sua vida, como um almoço faz parte da vida de um cidadão comum. Ao dar entrevista, Irene disse que estava há 36 horas sem comer. Além das duas sacolas de roupa, ela só tem um plástico, que usa para se cobrir nas noites de frio.(J.A.)

mockup