Agricultor vira atleta na Copa Coamo
Sid Sauer
De Campo Mourão
O agricultor Dionísio Lucato (foto), 50 anos, é dono de uma chácara de seis alqueires em Quinta do Sol (43 km ao norte de Campo Mourão). Durante todo o ano, ele dá um duro danado para conseguir sobreviver na sua pequena propriedade. A cada dois anos, no entanto, Lucato esquece os problemas de pequeno produtor. Ele vira o goleiro do Estrela do Rio Mourão, um dos mais de 500 times que participam da Copa Coamo de Cooperados de futebol suíço.
Associado da Coamo há 20 anos, Lucato jura que não costuma jogar futebol. Não sobra tempo, explica. Mas da Copa Coamo ele não abre mão. Este ano ele participou pela terceira vez. Não foi nenhuma participação daquelas de fechar o gol. Em três jogos, levou 12 gols. Sabe que eu nem vi a bola passar, conta. O agricultor diz que seu time é fraco, mas não admite que tenha falhado em nenhum gol. Vamos ter que analisar isso vendo as imagens, brinca.
O Dida do Estrela tomou gols antológicos. Num deles, ele se atrapalhou com a bola, que acabou batendo em sua cabeça. Na batida, a bola derrubou o boné do goleiro no chão. Lucato não pensou duas vezes: foi rápido atrás do boné e deixou a bola livre para o atacante adversário estufar as redes. Será que eu fiz isso mesmo?, duvida o goleiro-agricultor. Se fiz, é porque o boné era meu e a bola não.
Na Copa Coamo é assim. A festa vale mais - muito mais - que o futebol. Que o diga o meio-de-campo Genésio Caires, 31 anos, cooperado em Engenheiro Beltrão (30 km ao norte de Campo Mourão) e companheiro de Lucato no Estrela do Rio Mourão. Vale pelo churrasco. E que churrasco! Caires não disfarça seus 110 quilos, mas garante que ainda dá para correr no campo todo, como fazem os modernos jogadores polivantes.
Churrasco, aliás, é o que não falta na Copa Coamo. Os jogos que se iniciam logo pela manhã e seguem até o fim da tarde só param para o horário sagrado do almoço. É churrasco para todo mundo. De preferência, regado a uma boa cerveja gelada. Nada de comida balanceada, até porque os adversários cometem os mesmos excessos. A torcida, formada basicamente por filhos e mulheres dos atletas, também pode comer à vontade.
O que falta para o nosso time é treino, admite Caires, tentando explicar as três derrotas seguidas que levaram a equipe à desclassificação precoce. A última vez que que a equipe atuou junto foi na Copa Coamo de 97. A chuteira já estava embolorada. Para piorar, ele diz que o time é formado pelo resto dos outros. Depois que todos os times já estão formados, nós formamos o nosso.
No caso do Estrela ainda há quem jogue contra o patrimônio. É o caso do agricultor Conrado Graff, 54, que marcou um gol contra na derrota por 3 a 0 para o Sertãozinho, um clássico que decidia quem era o pior do grupo. Eu queria jogar a bola para escanteio, justifica. Cooperado há 10 anos e participando pela segunda vez da Copa Coamo, Graff não se abate. Isso é normal do jogo. Ele promete voltar em 2001.
A competição também se destaca pelo prestígio dos técnicos. José Samsel, 50, dono de um sítio de 30 alqueires em Engenheiro Beltrão e cooperado há 20 anos, continua firme no comando do Estrela, apesar da campanha estilo Venezuela: três jogos, três derrotas, 12 gols sofridos e nenhum marcado.Competição reúne 500 times só de cooperados de mais de 40 cidades, num espetáculo de chutões e confraternização
Fotos Simone GirotoPernas bambasLances de um dos jogos da Copa Coamo e a torcida, composta sempre por familiares dos atletas; na churrascada de almoço, ninguém se poupa: muita carne e cerveja gelada encerram qualquer disputa mal resolvida em campo





