Agressividade à flor da pele
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Silvana Leão<BR>Reportagem Local 
Nas baladas, elas são as responsáveis pelos maiores barracos. Nas escolas, envolvem-se em brigas e causam espanto pelo repertório de xingamentos que são capazes de proferir. Afinal, o que está acontecendo com a atual geração de meninas?
A explicação não pode ser baseada em uma única causa, segundo a psicóloga clínica Eliane Belloni, mestre em Psicologia e Sociedade. Para ela, é preciso avaliar todo o processo de construção da agressividade do comportamento feminino. A questão não é só no âmbito familiar ou psicológico, mas social. Este comportamento está ligado à evolução da mulher na sociedade. O feminino, que foi sempre tão reprimido, ganhou visibilidade; o problema é que essa visibilidade está passando também pela esfera da agressividade.
Eliane lembra que a participação da mulher é realidade no mercado de trabalho, na vida econômica, na política, e também na esfera da agressividade, que era essencialmente masculina. A mulher ganhou espaço, inclusive, no âmbito dos grupos delinquentes. Por consequência, temos adolescentes mais agressivas e que têm orgulho de mostrar que ganharam espaço em função desta agressividade. Segundo a psicóloga seria um paradoxo exigir a vida participativa da mulher na sociedade somente para o trabalho.
Mas por tratar-se de um comportamento recente, ainda causa estranheza. Ou, como diz Eliane, é como se não combinasse com aquilo que nós esperamos do sexo feminino. É preciso lembrar, porém, que o papel feminino é dinâmico. A valentia, que era até há pouco tempo uma característica masculina, hoje também faz parte do papel feminino. E isso assusta as pessoas, acostumadas a ver a mulher só no papel do trabalho, e não da delinquência. Trata-se de um novo paradigma, sentencia.
Juntamente com este modelo que não estamos acostumados, há agravantes como a presença das drogas, a concorrência no mundo do trabalho, a falta de limites por parte da família. Eliane alerta que muitos pais, na tentativa de poupar o sofrimento dos filhos, são permissivos demais. O resultado são indivíduos que crescem achando que seus desejos são mais importantes que os dos outros, porque eles sempre foram satisfeitos. São pessoas que não sabem conviver com a frustração e passam a agredir.
No caso específico da mulher, a psicóloga ressalta que o lado verbal, de maneira geral, é mais desenvolvido. Por isso as verbalizações agressivas que são um tipo de violência psicológica aparecem com mais frequência nas mulheres, e são muito comuns nas escolas, onde os grupos que têm pontos em comum se reúnem, formando uma espécie de pequenas gangues para atacar outros grupos.
Sobre a falta de limites, Eliane observa que o problema existe na família por existir também na sociedade. Fica muito difícil para os pais colocarem limites quando a televisão invade nossa sala com uma série de propagandas de consumo. Muitas famílias não conseguem admitir para os filhos, sem culpas e frustrações, que não podem comprar o que está sendo oferecido. E uma pessoa que sente-se culpada não consegue educar. A consequência é um número cada vez maior de pais angustiados para criar condições de atender a tantas solicitações, penalizando o tempo de convívio com os filhos.
Para a psicóloga, a agressividade que aparece na escola é reflexo da falta de respeito em um âmbito bem maior. Não é na adolescência que o problema surge. Se estudarmos a história de vida desse adolescente, provavelmente vamos descobrir que ela não foi baseada em uma relação de afeto, de cuidado com o outro. É na adolescência, porém, que o menino ganha força física e a menina acha que pode usar as palavras para agredir, observa.
Por fim, a psicóloga lembra que mais do que instrução, os pais devem se preocupar em dar bons exemplos para os filhos. Não adianta dizer que brigar é feio e ficar o tempo todo brigando na frente dos filhos. É como se diz: A palavra ensina e o exemplo arrasta. Vários fatores desencadeiam a violência, mas uma coisa é certa: ela é sempre sinônimo de algum tipo de insatisfação.


