Agressão por policiais revolta família
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terça-feira, 08 de abril de 1997
Márccio W. Varella Sucursal de Maringá 
Marcos NegriniViolência e medoFélix e Ermelinda, pais de roçadores e pedreiros: Oramos pelas autoridades todos os diasMANDAGUAÇU - Uma família de roçadores e pedreiros de Mandaguaçu (a 16 quilômetros de Maringá) acusou ontem a Polícia Militar de ter agredido seis de seus membros, após invadir a casa e prender arbitrariamente quatro pessoas. O promotor Élcio Arruda, de Mandaguaçu, já pediu à Polícia Civil a abertura de inquérito para apurar as denúncias.
Segundo o chefe da família, o roçador aposentado Félix Araújo da Silva, 73 anos, por volta das 21 horas do Sábado de Aleluia, o filho dele Aírton, 23 anos, lhe contou que havia mexido com uma mulher na rua. Ele teria dito uma piada a ela, que revidou com um tapa. Segundo o pai dele, Aírton devolveu o tapa e ela foi chamar a polícia.
Três PMs chegaram numa viatura e perguntaram por Aírton que estava escondido embaixo de uma das camas da casa. Não esperaram por resposta, conta Félix. Foram entrando, sem nenhum mandado, nem nada, como se a casa fosse deles. No meio do caminho, encontraram meus outros dois filhos (Isaías, 26, roçador) e Isaac (31, pedreiro) e os algemaram, encostando-os na parede como se fossem bandidos.
Isaac conta que sua enteada de 15 anos, grávida, foi empurrada pelos PMs, que cheiravam à bebida, e caiu no chão. Issac foi levado para dentro de uma viatura. Um deles encostou o revólver em minha cabeça e apertou o gatilho. Ouvi o clic da arma descarregada. Fiquei apavorado. Depois bateu com a coronha do revólver na minha cabeça. Disse que era para eu sumir de Mandaguaçu.
Do lado de fora da casa, os PMs deram um pescoção em Félix, que teve a perna direita engessada. A mulher dele, Ermelinda Beraldi da Silva, 71 anos, mãe de dez filhos, reclamava seus direitos. Os PMs pediram reforço ao 4º Batalhão de Maringá. Veio até atirador de elite, fizeram a maior confusão aqui na frente. Tinha uns dez PMs e quatro viaturas. Nos xingaram de bandidos só porque somos pobres, disse Isaac.
Perdi a obra que estava fazendo, porque estou com medo de sair de casa. Os PMs Marconi e Mendonça, que agrediram a gente dentro de nossa casa, torceram nossos braços e nos bateram na cara, me cercaram na saída do Fórum e disseram que se eu falasse alguma coisa com o promotor eu seria morto, acusou.
Ermelinda, Isaac, Isaías e Aírton ficaram presos o resto da noite na delegacia de Mandaguaçu. Na segunda-feira, apresentaram queixa ao promotor Élcio Arruda. Os depoimentos foram prestados anteontem.
Nunca confiamos na polícia, mas oramos por eles todos os dias. Nós precisamos da lei. Se não existisse o pecado, não existiria a lei. E eles ainda fazem isso com a gente, lamenta Ermelinda.
O comandante do 4º Batalhão da PM, tenente-coronel Alberto Augusto da Silva, responsável pelo policiamento de Mandaguaçu, disse que se for levado em conta o tamanho e o porte da cidade, o número de ocorrências e queixas contra a PM é muito pequeno. Disse que mandou apurar o caso de Mandaguaçu e o episódio envolvendo o jornalista Antonio Carlos Moretti (veja texto ao lado) para saber que atitude o comando deverá tomar.


