O assassinato do pintor Ricardo Soares Dias dos Santos, 23 anos, era uma incógnita para a família até ontem. Tido como um filho obediente e ''bem encaminhado na vida'' pelos pais, Santos foi morto com três tiros anteontem à noite, na Rua Café Bourbon, Residencial do Café (Zona Norte). Ele havia acabado de deixar a namorada em casa e retornava para a própria residência, no Jardim dos Pássaros (bairro vizinho), quando foi atingido.
Ao contrário de grande parte dos jovens envolvidos em crimes, sejm autores ou vítimas, Santos parecia desfrutar de uma boa estrutura familiar. Sempre morou com a mãe, que há seis anos casou-se pela segunda vez com o vendedor de doces Sebastião da Silva, 52 anos. ''Eu e 'minha rainha' formamos o casal mais romântico de Londrina. Somos uma família feliz, que combina muito bem. O Ricardo sempre foi obediente, nunca catou o carro para sair sem avisar, por exemplo'', declarou o padrasto.
Foi em clima familiar que a vítima passou seu último dia, de acordo com Sebastião. ''À tarde, ele foi ao supermercado com a mãe. Me disse que depois pretendia ir ao colégio, se matricular no supletivo, fazer o segundo grau. Minha esposa contou que ontem (anteontem) ele havia dito a ela: 'eu vou te dar o gosto de ser alguém'', comoveu-se o padrasto, acrescentando que o enteado havia acabado de sair de uma firma, onde trabalhou durante o ano com carteira assinada, e se preparava para entrar em outra. Ele afirmou há mais de um ano o rapaz teve uma passagem pela polícia por furto de toca-CD, mas que agora estava ''se encaminhando''.
A família, que é adventista, descarta que o crime tenha sido motivado por envolvimento com drogas. ''Sempre perguntávamos sobre essas coisas. Ele me dizia: 'não tô andando com gente à toa não, seo Tião, tô na casa da mulherada''', lembrou. Por essa razão, os pais desconfiam de crime passional.
A última namorada de Silva foi uma estudante de 16 anos. Ela contou à reportagem que o conhecera há pouco mais de uma semana. ''Ele era muito lindo. Tinha acabado de me deixar na esquina da minha casa, quando ouvi o barulho. Quarenta minutos depois, soube que tinham matado ele'', falou. ''Não sei qual foi o motivo. Só sei que ele 'caiu' quase em frente a uma boca de fumo'', observou.
A morte do pintor dá continuidade ao início de mês mais violento do ano, com um homicídio por dia. No total deste ano, já são 91 vítimas. O delegado de Homicídios da 10 Subdvisão Policial (SDP) de Londrina, Joaquim de Melo, acredita que não há razão específica para a sequência de crimes. ''Não tem muita explicação. Às vezes se passam semanas sem nenhum homicídio, de repente vem um atrás do outro. Mas não há relação entre eles'', afirmou. O delegado afirmou já ter desvendado os outros três crimes cometidos nesta semana, mas até ontem nenhum pedido de prisão havia sido decretado. O assassinato de Silva ainda seria investigado.

mockup