Bombardeada por décadas por agentes poluidores de toda ordem, a bacia hidrográfica do Ribeirão Quati (Zona Norte de Londrina) chegou ao ponto em que apenas os resistentes lambaris conseguem sobreviver em suas águas praticamente mortas. Vítima da morte anunciada, o ribeirão ganhou uma chance de sobrevida ontem com a costura de um acordo para recuperar o manancial e que envolve as secretarias de Meio Ambiente municipal e estadual, a comunidade e o empresariado da região.
A bacia do Ribeirão está situada exclusivamente na área urbana de Londrina. O riozinho nasce nos fundos do Jardim Nossa Senhora da Paz, margeia a Avenida Brasília passando por uma área densamente povoada até desaguar no Ribeirão Lindóia, nos fundos do Conjunto Mister Thomas. Para concluir seu ciclo, ele cumpre uma verdadeira via sacra: a mata ciliar, importante para manter o rio vivo, foi praticamente toda devastada; ocupações urbanas irregulares abarrotam seu leito com lixo e esgoto doméstico; indústrias usam suas águas como destino final de seus resíduos químicos; e criações de gado degradam áreas de preservação permanente. Somando as décadas de esquecimento, o ribeirão hoje praticamente não respira mais. Somente os lambaris, espécie resistente à poluição, conseguem sobreviver em suas águas.
Ontem, no Dia Mundial da Água, um acordo foi firmado para tentar por fim ao calvário vivido pelo Quati. O coordenador do Programa de Mata Ciliar da Secretaria Estadual do Ambiente (Sema), Saulo Gaspar, apontou que a primeira medida efetiva será um diagnóstico de toda a bacia para pormenorizar seus problemas e apontar caminhos que definam qual o tratamento mais indicado. Em outubro, durante o chamado ciclo das águas, terá início o plantio de espécies nativas para recuperar a mata ciliar. A Sema irá fornecer as mudas e a comunidade ribeirinha será chamada para contribuir com o plantio.
Gaspar apontou que para o encontro de ontem foram convidados empresários e lideranças comunitárias, peças essenciais para que a recuperação da bacia seja eficaz. Poucos compareceram. ''Primeiro convidamos, mas caso não compareçam vamos fazer uma convocação'', avisou o coordenador. A promotora de Defesa do Meio Ambiente, Solange Vicentim, alertou que, por enquanto, o interesse é chamar todos os implicados com o problema para levantar soluções e apontar caminhos. Mas antecipou que a fiscalização será intensificada na área de abrangência da bacia e todos serão chamados às suas responsabilidades. ''Nossa preocupação maior nesse momento é com a recuperação total do meio ambiente'', argumentou.
Única liderança comunitária presente à reunião realizada na sede da Sema, o presidente da Associação de Moradores do Shangri-La B, Lidmar José Araújo, reforçou a importância da criação do que batizou de ação pública comunitária, que atuaria no âmbito da educação ambiental com a comunidade que reside às margens do Quati. ''As pessoas têm a boa intenção mas ainda acham que é um dever do poder público. Muitos não entendem que precisam se preocupar também. É preciso sair da esfera da boa vontade para a esfera da ação pública comunitária, envolvendo moradores, igrejas e escolas'', opinou.

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