Nos últimos meses, três mulheres que atuam como agentes de endemias em Campo Mourão (Centro-Oeste) foram assediadas por moradores ao fazerem a vistoria nas residências para controle da dengue. O caso mais grave foi o estupro de uma funcionária registrado em novembro de 2018, mas outras duas sofreram assédio durante a execução do seu trabalho. Para proteger os servidores, principalmente as mulheres, a prefeitura fez uma parceria com uma academia de artes marciais e até março os agentes de endemias poderão aprender técnicas de defesa pessoal. A primeira aula começou no último sábado (19) e a programação prevê duas aulas mensais, em sábados alternados, durante três meses.

A coordenadora geral de campo da Divisão de Endemias da secretaria municipal de Saúde, Marinalva Ferreira da Luz, disse que após as denúncias de assédio e estupro praticados contra as agentes, a primeira providência do município foi determinar que as mulheres realizassem o trabalho sempre em duplas e não mais sozinhas, como acontecia até então. "Vimos que nossas colegas femininas estavam vulneráveis e precisávamos tomar algumas providências. Além de colocá-las para trabalhar em duplas, pensamos também no curso de autodefesa", comentou. "Campo Mourão tem o programa de combate à dengue há quase 30 anos e nesse tempo houve muitos casos de violência verbal. A gente sempre orienta os agentes a não baterem boca. Mas recentemente tivemos casos em que as agentes foram tocadas."

Em novembro, uma agente de endemias foi estuprada durante o trabalho de campo. Ela relatou ter sido agarrada pelo pescoço e levada à força pelo morador para dentro da casa, onde teria sofrido a violência sexual. O estuprador foi preso e a servidora recebeu atendimento médico, psicológico e jurídico do município. Além desse caso, outros dois menos graves, mas igualmente preocupantes, foram registrados. Duas agentes de endemias foram molestadas pelos responsáveis pelas residências nas quais faziam a vistoria. "O curso de defesa pessoal é uma forma de resgatar a autoconfiança dos nossos agentes e protegê-los em situações de risco. Embora as mulheres sejam mais vulneráveis, o curso também é direcionado aos homens", ressaltou Luz.


SITUAÇÕES EXTREMAS
O curso de três meses é dividido em seis módulos e não terá custo algum para o município. Foi feita uma parceria público-privada com a Academia Markine Fight e cinco professores se revezam no ensinamento das técnicas de kung fu e sanda. "O curso não busca transformar o aluno em atleta marcial, mas ele vai conseguir identificar e saber se posicionar em situações de risco e, se chegar a situações extremas, vai saber utilizar as técnicas para sua própria defesa. O kung fu e o sanda podem ser utilizados por todas as pessoas, principalmente mulheres, crianças e idosos", explicou o professor da academia, Wellington Souza. As aulas acontecem das 9 às 10h30 no Centro de Juventude Itachi Tagliari, do qual Souza também é coordenador.

Campo Mourão conta com 42 agentes de endemias, sendo 29 mulheres e 13 homens. A primeira aula teve 28 participantes, mas a coordenadora da Divisão de Endemias acredita que na segunda aula, no dia 2 de fevereiro, outros agentes deverão se juntar ao grupo. "Quem foi à primeira aula adorou e acho que mais pessoas vão se interessar. O número de participantes deve aumentar. Os agentes nunca sabem o que vão encontrar dentro do imóvel. Esperamos que eles consigam se defender nem que seja para correr e conseguir algum socorro", comentou Luz.

SEM DÚVIDAS
Agente de endemias em Campo Mourão, Josaine Patrícia Bonfim iniciou na função em 2012 e conta que nunca sofreu violência ou assédio durante o exercício da sua atividade, mas já teve receio de entrar em algumas casas e preferiu sair sem fazer a vistoria. "A gente lida com pessoas que nunca viu na vida e, em algumas situações, fica com medo."

Depois da violência sofrida por três de suas colegas, Bonfim disse que já havia pensado em fazer um curso de defesa pessoal e quando soube da oportunidade oferecida pelo município, não teve dúvidas e decidiu participar. "Os professores são muito bons e estão auxiliando a gente a aprender a se defender. A cada dia, eu visito cerca de 30 casas e a pessoa não vem com uma faixa na testa explicando como ela é. Mesmo fazendo um serviço rotineiro e sendo conhecida em algumas regiões, às vezes acontece alguma situação. É bom a gente saber como fazer."

mockup