Produtos feitos por e para a população negra estiveram expostos na primeira Feira Afrocriativos de Londrina, realizada no fim de semana em Londrina. O evento com foco no afroempreendedorismo uniu 25 expositores, que viram a oportunidade de divulgar produtos e serviços que valorizam a cultura negra.

Feria Afrocriativos contou com 25 expositores de produtos e serviços vinculados à cultura afro
Feria Afrocriativos contou com 25 expositores de produtos e serviços vinculados à cultura afro | Foto: Roberto Custódio

Brincos e tecidos étnicos, cosméticos específicos para a pele negra, trabalho de trancista, venda de turbantes, acarajé, a feira contou com variedade de itens, oportunidades, muita identidade e pretende discutir espaços ainda inexplorados. O evento fez parte da programação do mês da Consciência Negra de Londrina e compartilhou espaço com outras duas exposições, a 3ª Mostra de Música Afro Brasileira Londrina e a 34ª Mostra Afro Brasileira Palmares Londrina.

TRANÇAS NAGÔ

“É importante ver esse movimento de negro ajudando negro, eu trabalho cabelo, mas tem outro expositor vendendo bolo e a gente está se ajudando para fortalecer nossa cultura”, conta Ana Paula Santos, 44, uma das participantes da feira.

A cabeleireira tem um salão em Cambé (Região Metropolitana de Londrina) especializado em beleza negra e conta que aprendeu a fazer tranças nagô com a avó. “Ela fazia nas filhas e nas netas, eu aprendi com ela, mas fui a primeira da família a ter essa proximidade com a cultura afro. Então, fui me profissionalizar, me especializar para abrir meu salão”, comenta. Além das tranças nagô, a cabeleireira também vende turbantes, tecidos e acessórios étnicos que ela produz com a ajuda do marido.

Com uma barraca colorida, a trancista revela que o seu trabalho mexe com a autoestima da mulher e que se sente orgulhosa em poder trabalhar questões de identidade ao oferecer, além do serviço, oficinas gratuitas para aquelas que desejam empreender. Ela também faz parte de coletivos e participa de outras feiras na Região.

A cabeleireira Ana Paula Santos aprendeu a trançar cabelos com a avó
A cabeleireira Ana Paula Santos aprendeu a trançar cabelos com a avó | Foto: Roberto Custódio

Na feira, as tranças custavam a partir de R$ 25. Valéria Fernandes, 41, aproveitou a oportunidade. “Eu sempre fiz tranças, vou para casamentos, para eventos, para mim é normal, eu sou apaixonada”, comenta. Vendendo bolos no espaço, ela aproveitou a oportunidade de se conectar com outros empreendedores, formar uma rede e trazer para perto as memórias de uma cultura. “Minha mãe sempre fazia tranças na gente e para mim é uma forma de assumir minha negritude”, afirma a confeiteira.

COSMÉTICOS

Para realizar o desejo antigo de exercer a psicologia, Maria Júlia Gomes, 27, desistiu da profissão anterior para entrar no curso, que é em período integral, e teve que buscar formas alternativas de sustento. A revenda de cosméticos era uma opção, mas não se identificava com nada que aparecia. “Eu encontrei essa marca, achei interessante a história da dona, que é brasileira. Ela tem um canal no Youtube e trazia coisas do exterior, porque não encontrava produtos no Brasil”, menciona. Após anos de experiência, a carioca fundadora da linha passou a produzir seus próprios itens de beleza.

“Muitas mulheres vinham me falar que não gostavam de maquiagem, mas porque não existiam produtos para a pele delas”, relata a revendedora Maria Júlia Gomes
“Muitas mulheres vinham me falar que não gostavam de maquiagem, mas porque não existiam produtos para a pele delas”, relata a revendedora Maria Júlia Gomes

Em Londrina, Gomes é uma das poucas (se não a única) a trabalhar com a marca. “Muitas mulheres vinham me falar que não gostavam de maquiagem, mas porque não existiam produtos para a pele delas”, relata. A base tem até cinco tons diferentes de pele negra e custa em torno de R$ 45. “Faz um ano que estou revendendo, não faço tanta divulgação, mas recebo muita demanda no perfil de rede social. Essa é a segunda feira que eu participo e vim justamente para mostrar os produtos”, afirma. A revendedora acredita que ainda há uma lacuna no desenvolvimento de produtos para a pele negra, assim como serviços especializados em cabelo e maquiagem, mas acredita que há um olhar mais atento para o mercado.

BONECAS

Na infância, essa conexão com a ancestralidade também pode ser desenvolvida. Foi o que pensou Luciane dos Santos, 49, ao produzir bonecas negras de pano. “É uma questão de identidade. Quando uma criança vê e se reconhece na boneca é muito emocionante”, revela. Há 20 anos produzindo bonecas de pano, a artesã conta que só entendeu melhor o racismo depois que entrou na faculdade de ciências sociais, aos 42 anos. “Antes eu achava que a culpa era minha”, salienta.

A artesã Luciane dos Santos produz bonecas negras de pano para trabalhar racismo com crianças
A artesã Luciane dos Santos produz bonecas negras de pano para trabalhar racismo com crianças | Foto: Roberto Custódio

Há dois anos passou a produzir bonecas negras. “Passei a trabalhar o racismo com as crianças de uma forma que não magoe, de um jeito que ela se enxergue, e com um trabalho com bom acabamento, porque se ela acha a boneca bonita, ela vai se achar bonita também”, defende. As bonecas variam entre R$ 50 e R$ 120.

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