Érika Pelegrino
De Londrina
Desde muito pequena sua maior diversão era brincar de escolinha. Adorava ser a professora nas brincadeiras infantis. Nascida numa família grande, com seis filhos, sentiu na pele as privações da pobreza causada pela falta de dinheiro e pela falta de afeto e carinho. Ela conta, sem deixar transparecer mágoa, que os pais tinham dificuldades em se relacionar afetivamente.
Difícil imaginar que a mulher de 36 anos, que recebeu tão pouco quando criança tenha tanto para doar para os colegas de trabalho, para a família e, principalmente, para as suas crianças. Ela conta que buscou na fé em Deus – ‘‘desde menina ia à igreja, participava de grupos de jovens’’ – a sua força. Ela converteu todas as privações da infância em abundância de afetividade. Há 17 anos, Teresinha Avila trabalha educando crianças.
Ainda menina já tinha esse jeito que ela mesma chama de ‘‘mãezona’’. Podia faltar dinheiro e até mesmo amor, mas Teresinha teve a sabedoria de não deixar morrer o seu sonho. A garota cresceu com uma certeza, tinha uma missão na vida: iria ser professora.
Aos 19 anos ela viu seu sonho começar a se concretizar. Teresinha já não brincava mais de escolinha. Ela tinha uma sala de aula e crianças para as quais tinha que mostrar os conteúdos escolares. Durante 11 anos trabalhou em escolas particulares.
Casou-se e teve filhos. As necessidades financeiras levaram-na a prestar concurso na prefeitura. Foi aprovada e começou a dar aulas também na rede pública. Teresinha se deparava com uma outra realidade e por idealismo mudou os rumos de sua vida profissional. Deixou as escolas particulares para ser professora em uma escola pobre com crianças carentes financeira e afetivamente, como ela mesma tinha sido um dia.
Teresinha não esconde que a parte financeira também pesou na sua escolha. Embora ganhasse mais na rede particular, a rede pública oferecia também vantagens como plano de saúde e estabilidade. Foi na Escola Municipal Hikoma Hudihara que Teresinha afirma ter descoberto o que é ser professora.
‘‘Eu estava acostumada com alunos que tinham de tudo e de repente estava diante de crianças que não tinham nada, que não possuíam vínculo nenhum com a vida, simplesmente porque não eram gostadas’’, conta. ‘‘Eu gosto de desafios, de tentar me superar e nas escolas particulares o único ‘desafio’ é fazer tudo o que a escola determina. Você não tem como criar, tem que obedecer às regras’’, afirma.
Seus novos alunos ofereciam a ela, sem dúvida, um grande desafio: tinha que despertar naquelas crianças o interesse em aprender. Aos poucos percebeu que para isso não bastava chegar na sala de aula e começar a passar o conteúdo escolar. Antes de mais nada tinha que criar naquelas crianças um vínculo com a vida, o prazer em descobrir coisas novas. Tinha que fazê-las se sentir gostadas.
A professora, que durante 11 anos lecionou transmitindo conhecimentos e de repente percebia que educar era muito mais que isto, se viu diante da necessidade de descobrir uma nova forma de trabalhar com a educação. Teresinha confessa que foi com a orientação e apoio da diretora da escola, Marlene Proença, e da supervisora Ana Maria Ferro de Paula, que descobriu qual a ferramenta a ser utilizada neste novo desafio: afeto.
Ela uniu uma característica sua, ser ‘‘mãezona’’ como costuma dizer, com o incentivo transmitido pela diretora e pela supervisora da escola, para trazer de volta os alunos que tinham perdido o interesse em aprender. ‘‘Ao perceber que eles precisavam ser gostados, vi que eu podia ser a pessoa a oferecer isso para eles’’, conta.
Quando a escola implantou o projeto ‘‘Adote um Estudante’’, no qual padrinhos adotam os alunos para acompanhá-los em seu desenvolvimento escolar, a professora viu o resultado ‘‘mágico’’ que o carinho tem na educação. ‘‘Estas crianças melhoraram 100% no aprendizado. Isso porque elas tinham alguém que se preocupava com elas.’’
O segredo, segundo Teresinha, está em resgatar os antigos valores deixados de lado. ‘‘Eu trabalho muito com o lado espiritual, por exemplo, que é forte em mim. As crianças iniciam as aulas com uma oração e em pouco tempo já estão fazendo oração espontânea, pedindo pelos seus amigos, pelos seus pais.’’
Mesmo com um jeito bonachão e de quem, aparentemente, seria incapaz de dar uma bronca, Teresinha deixa claro que educar com carinho não significa ser permissivo. ‘‘É fundamental o limite para que a criança sinta que você se preocupa com ela. Por isso, quando é preciso dar bronca, tem que dar. Não é só dar, você tem que receber também’’, diz.
Teresinha resume: ‘‘A educação com amor é baseada numa relação de troca. Você dá afeto e a criança reconhece os limites. Quando os ultrapassa é preciso que sejam restabelecidos’’. Em sua experiência, ela garante que mau comportamento de alunos e baixo rendimento escolar, estão relacionados a problemas familiares.
‘‘Estas crianças, com certeza, vêm de lares desestruturados’’, afirma. ‘‘Aqui (na escola Hikoma Udihara) a diretora visita as casas dos alunos para conhecer a realidade onde vivem. A escola não pode se preocupar apenas com a sala de aula, mas tem que ir para a comunidade, conhecer a família dos alunos. Educação é isso’’, afirma.
Foi na escola pública que Teresinha aprendeu que professor não cumpre horário. Ela passa o dia todo na escola. ‘‘Não adianta você vir aqui sem se envolver’’, afirma. Teresinha conta que quando entra na sala de aula se transforma. ‘‘Eu posso estar triste, ter meus problemas, mas quando entro na sala de aula entro na vida dos meus alunos também. Sou outra pessoa’’, diz. Para Teresinha, ser professora é uma missão.

PERFIL
Nome: Terezinha Avila
Idade: 36 anos
Profissão: professora
Sonho: trabalhar apenas por amor à profissão, sem a preocupação financeira

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