Advogado poeta usa versos e rimas para fazer petições
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sábado, 17 de setembro de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Peço licença ao leitor mais exigente, que da clareza e objetividade do jornalismo faz caso; com justa razão concordo, mas vou tomar da prosa/verso emprestado, a singeleza um bocado, e apresentar com diletantismo na arte, o advogado que com rima defende qualquer acusado.
O advogado criminalista londrinense Hamilton Laertes Araújo apresentou mais de 20 petições e contestações, entre outras peças, em que a poesia é assistente de defesa, suplicando com o lírico apelo, que o juiz tenha a presteza.
''Um juiz tem que se preocupar com dezenas de petições, diariamente, e precisa encontrar nelas uma leitura prazerosa. Por isso, as petições devem ter uma diferenciação de linguagem e discurso. A rima é quase uma canção. É melodiosa'', diz Araújo, que já colheu não só um bom número de sentenças favoráveis aos réus, como também elogios ao poeta/advogado, que não se faz de rogado, mas no verso é eloquente, livrando da pena dura, o que assegura inocente.
O advogado não está sozinho ao burilar com poesia as petições. Araújo, que leva até ao tribunal do juri a defesa pela métrica e combinação de palavras, ''enfrentando'' do outro lado um promotor - na acusação formado - se inspira em outros togados. Entre juízes famosos, um escreveu ''Marília de Dirceu''.
''A linguagem jurídica não tem necessariamente que ser fria. A lei já é dura e fria. Se pudermos amenizar isso, é melhor. A advogacia criminal não trata do patrimônio, mas de coisas profundas da humanidade, como a liberdade'', acrescenta Araújo, que há dois anos adotou a poesia nas argumentações de defesa.
Para os que guardam reservas do direito criminalístico, Araújo é realista: ''Aparentemente, promotoria e defesa estão em lados opostos, mas buscam o equilíbrio social'', afirma, para exemplificar com um átimo poético, que para falar em justiça, não há de ser maniqueísta.
''Algo então a se dizer/Sem nenhuma hesitação:/Ocorre que o promotor/De Justiça, não é não;/Regozija-se em júbilo/Na volúpia da acusação/Ocorre que o promotor/De Justiça, não é não;/Doutor, deixa tua espada,/Põe no peito coração'' - argumentou, numa petição.
Passando de um caso para outro, Araújo conta um pouco daquele que o impressionou. Ele narrou com tinta, pormenorizou... Na voz ativa da filha, o suposto crime pintou. O pai, que num aceno de fúria, a mãe da garotinha matou. ''Mamãe está viajando/E vai demorar/Papai volta logo/Que eu quero te amar (...)/Vem logo paizinho,/Eu te amo demais/Volta logo, te espero/E não viajes jamais'', defendeu ao comparar a morte da mãe e a condenação do pai com uma viagem por caminhos diferentes ao mesmo destino.
''O advogado criminalista precisa ter sensibilidade para conseguir sensibilizar os juízes'', justifica, dizendo que para argumentar com poesia, precisa sair do dia-a-dia.
''É necessário estar fora do escritório de trabalho, desligar o telefone celular. Com o tempo, a gente vai criando habilidade para as rimas, que não são tão difíceis, sendo preciso colocar a realidade dos fatos sem sair dos autos''.
Araújo chama a atenção dos magistrados para o caso de um tal Sebastião. Ele começa explicando como tudo aconteceu e termina suplicando justiça a quem mereceu. ''Sem adentrar no mérito/Desta presente questão/Rapidamente indica/A conduta de Sebastião/Que por inculpado ser/Deve deixar a prisão(...)/Em data de 14/março/05/Encontrava-se a trabalhar/Conhecidos então do bairro/Vieram lhe contratar/Viajando até Assaí./Visava seu laborar(...)/De pronto chega a polícia (...)/Sai do carro marginal/Nunca ouviu algo assim/Sai do carro tipo imundo/Ou então será o seu fim''.
Mas se esta história tem seu final - que não há de ser aqui - passamos então ao caso do menino que o procurou. Só com uns vinténs no bolso, o guri não titubeou ao pedir ''pelo amor de Deus, salve quem me gerou''.
''No ufa-ufa do mundo do crime/Não presenciamos algo assim. Um menino adolescente,/Banhando em lágrimas sem fim:/'Doutor, tira minha mãe da cadeia!/Tira minha mãe para mim!./Vendi minha calça por R$ 30,00/Outros R$ 30,00 meu tio me deu./Por R$ 10,00 vendi meu cinto,/É todo o dinheiro meu. Tira minha mãe pra mim!/ Me ajuda, oh, meu Deus!''
Com esta história encerramos, o caso do advogado/poeta. Aos que zombam da qualidade dos versos, Araújo não nega fogo, parafraseando Bocage: ''Não sou poeta, apenas faço versos simples e, se não são lidos pelos ditosos, serão lidos com ternura pelos desgraçados''.


