Curitiba

Albari RosaForçaAtravés de um teclado de computador especial inventado pelo avô, Adriana dá vida aos personagens de seus livrosAdriana Gumz é uma jovem sorridente de 23 anos que se especializou em literatura infantil. Uma de suas oito estórias, ‘‘Bambino e sua Turma’’, foi lançada na 1ª Feira Interamericana do Livro, realizada recentemente em Curitiba. Em um só dia foram vendidos 75 exemplares da obra, que exalta virtudes como solidariedade e capacidade de perdoar. Detalhe: a escritora tem paralisia cerebral, o que a impede de falar e andar, mas não de se expressar a seu modo.
É através de um teclado especial que Adriana dá vida aos personagens contrários a manifestações de inveja e egoísmo, temas comuns nas estórias que cria. São dez teclas numerais de 0 a 9. A combinação delas é convertida em letra por um antigo programa de computador. ‘‘Há algum problema porque as frases que ela escreve são rapidamente apagadas’’, diz o avô da escritora, Raimundo Gumz, o ‘Professor Pardal’ da casa.
Foi o avô quem inventou o teclado para Adriana escrever. Ele também criou outro, semelhante, ligado ao controle remoto, para ela trocar os canais de televisão - a jovem adora desenhos e comédias, principalmente as estreladas pelo ator norte-americano Tom Hanks em início de carreira. ‘‘Ele também construiu um elevador para facilitar o deslocamento de Adriana para a parte de cima da casa’’, conta a mãe da escritora, Lizete Gumz.
Ex-fabricante de lentes óticas, o avô de Adriana até estudou informática para ajudar a neta, mas não consegue detectar a falha do computador. ‘‘Precisamos mesmo de um apoio técnico’’, resigna-se Gumz. Sem que o problema seja resolvido, a escritora atrasa a conclusão de seu próximo livro: ‘‘Lição de Férias’’. ‘‘É sobre um menino que vai visitar os avós e se irrita ao saber que seu primo deve lhe fazer companhia’’, adianta Lizete.
A mãe de Adriana coloca à disposição o telefone da família, tanto para técnicos em informática quanto para editoras que possam publicar as estórias: (041) 335 6788. Ter os livros da filha editados seria uma das realizações pessoais de Lizete. ‘‘Eu a alfabetizei com peças de madeiras com a inscrição de cada letra. Hoje, ela é uma escritora’’, diz, orgulhosa, ao mesmo tempo que mostra as medalhas ganhas por Adriana em competições de dominó.
Adriana aprendeu a ler e escrever aos três anos. Já nessa época demonstrava sensibilidade para as artes, como provam desenhos e pinturas que decoram o interior da casa onde vive, no bairro das Mercês, em Curitiba. Aluna de um curso equivalente à 4ª série primária na escola Tia Vívian Marçal, própria para crianças com paralisia cerebral, a jovem escritora impressiona pelo carinho com que retribui o amor da família.
‘‘Fico emocionada demais quando chego perto e ela me enche de beijos e carícias’’, confidencia Lizete, apaixonada pela única filha. ‘‘Ela é o meu xodó’’, emenda Gumz, auto-intitulado fã número um de sua única neta. Com os pés metidos no aquecedor também inventado pelo avô, Adriana ouve a declaração de seus familiares e faz o que é sua marca pessoal, acima de qualquer deficiência: sorri.

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