''Acabo de receber em casa três garotas tremendo de medo. Uma descalça, pois roubaram os tênis da que esteve com a arma apontada na cabeça. Outra sem bolsa, pois levaram tudo dela. E a minha filha, da qual não conseguiram levar nada, mas completamente atordoada''.
Dias atrás, o relato acima chegou a diversas caixas de e-mail acompanhado de um apelo: ''Alguém pode ajudar a reclamar?'' Era o pedido de socorro da professora de canto Hylea Ferraz, escrito apenas uma hora após sua filha Luiza e duas colegas, todas de 17 anos, terem sido assaltadas voltando de um colégio na Área Central de Londrina, em pleno meio-dia. Não demorou para que as respostas começassem a chegar.
''Meu filho de 11 anos e um amiguinho tiveram tênis roubados há dois meses, quase em frente ao prédio onde moro'', contava um amigo. ''Dois ladrões de moto levaram o toca-CD do meu sobrinho na hora do almoço'', dizia outra mensagem, dentre várias recebidas pela professora. Luiza também descobriu, mais tarde, que outros três colegas de sala foram assaltados perto do colégio na mesma tarde.
Na falta de estatísticas oficiais sobre roubos a jovens em Londrina - indisponíveis, segundo as polícias Civil e Militar - a reincidência de relatos dá uma noção da frequência e gravidade do problema na cidade. É aquela história: quase todo mundo tem um parente, amigo ou conhecido que já foi assaltado. Fica um sentimento ainda maior de desproteção quando se vê que os cidadãos estão descobrindo, já na infância e adolescência, o horror de ter a vida ameaçada em troca de bens materiais.
''Minhas amigas não voltam mais para casa pelo mesmo caminho. Eu agora fico reparando muito em cor de moto, porque os dois moleques que nos assaltaram tinham uma moto vermelha, sem placa. Fiquei um pouco paranóica'', diz Luiza, já recuperada do susto.
Tente imaginar agora o que se passa na cabeça de um menino de 6 anos durante e depois de passar 40 minutos dentro de um carro, ao lado de um homem armado com revólver que ameaça matar ele e a família. A situação aconteceu com o filho de Marlene (nome fictício), na saída de uma igreja no Centro de Londrina. A criança estava entrando no veículo com a irmã de 8 anos, a avó e uma tia, quando o assaltante rendeu a família e a obrigou a rodar até a saída para Curitiba.
''O homem foi atrás com as crianças. Minha filha puxou o irmãozinho para um canto e disse para ele ficar bem quietinho. O assaltante xingava e ameaçava matar todo mundo. No final levou jóias, dinheiro e abandonou o carro sem ferir ninguém'', revela Marlene. O reflexo daqueles 40 minutos de pavor apareceu mais tarde: o garoto, que estava se tratando contra enurese (incontinência urinária), passou a fazer xixi na cama com mais frequência.
A psicanalista Renata Graner afirma que crianças e adolescentes sofrem com mais intensidade os efeitos da violência. ''Eles dificilmente avaliam que algo tão grave pode acontecer com eles, e depois têm menos palavras para se expressar do que os adultos'', avalia. Segundo ela, é comum que uma vítima infantil ou jovem de crime desenvolva sintomas clínicos ou agrave os já existentes, como aconteceu com o filho de Marlene. Para evitar que isso aconteça, Renata diz que é fundamental que os pais façam os filhos falarem bastante sobre o fato.
''O assunto não deve ser evitado de maneira nenhuma. Os pais devem se mostrar compreensivos, dizer que imaginam como a pessoa se sente impotente e fragilizada. Geralmente se fala 'que bom, foi só uma perda material, ninguém se feriu'. Mas como ficou o emocional da pessoa?'', reflete. A especialista aconselha ainda que, nos instantes seguintes à ocorrência violenta, os pais recebam a vítima com uma contenção física - um abraço, um colo - e passem bastante tranquilidade. ''Se os filhos vêem que o adulto ficou tão desesperado quanto eles, a situação piora'', alerta.

mockup