Adolescentes trocam a rua por futebol
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sábado, 09 de agosto de 1997
Edmundo Inagaki Londrina 
Marcos BorgesHora do jogoJogadores da equipe juvenil da Escolinha do Consul entram no ônibus que os levará para disputar mais um jogo pelo Campeonato das Categorias Menores: estréia com bom desempenho, segundo os especialistas Crianças e adolescentes do Jardim União da Vitória, um dos locais mais pobres e violentos de Londrina, estão trocando as ruas pelo futebol. Criada há cerca de seis meses, numa parceria com o União Esporte Clube - o time oficial do bairro -, a Escolinha de Futebol do Conselho de Saúde da Região Sul (Consul) reúne hoje aproximadamente 100 garotos, na faixa dos sete aos 17 anos. Um grupo de 25 meninas também participa das atividades.
O coordenador da Escolinha, Nélson Cardoso, diz que o objetivo principal do projeto é tirar a criançada da rua. Sua meta é trabalhar com 400 jovens, incluindo outras modalidades esportivas, como basquete, vôlei e natação.
Cardoso reclama da falta de recursos financeiros para investir na infra-estrutura do projeto. Apesar do empenho de todas as entidades daqui do União da Vitória, falta dinheiro para tudo. Recentemente recebemos uma doação de material esportivo - uniforme e bolas - e a próxima luta é pela construção de um campo para jogos e treinamento, conta o coordenador.
Marcos BorgesDe bem!Agnaldo e Davi, da equipe juvenil do Consul: abaixo às drogas e ao preconceito
da sociedade contra o pessoal do União da VitóriaAssistida pela Coordenadoria de Extensão à Comunidade (CEC), órgão da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Escolinha do Consul conseguiu no mês passado um aliado importante. Durante a 1ª Feira de Saúde da Região Sul, um representante da Fundação Kellog - entidade de origem norte-americana que financia projetos ligados à área de saúde - tomou conhecimento da iniciativa e prometeu ajudar na busca de verbas.
A Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, mantida pela Associação Brasileira das Indústrias de Brinquedo, foi contatada e se interessou pelo projeto. Eles gostaram bastante da nossa proposta, anima-se Cardoso. Agora é torcer para conseguir o apoio deles.
O técnico da Escolinha, João Batista Marques, o João Tatu, que, além de comandar o time do União Esporte Clube, colabora com outro projeto social da região, o Irmão Caçula, reconhece que é difícil afastar os jovens da dura realidade vivida no bairro. Mas ele comemora os primeiros resultados positivos. Os meninos sabem que a rua é a porta de entrada dos vícios. A maioria fica conhecendo a bebida, as drogas e o fumo muito cedo. Alguns começam a usar dentro da própria casa. A região aqui tem fama de violenta, mas são o álcool e as drogas que geram a violência.
João Tatu lembra que a discriminação com relação aos moradores do bairro é tanta que até bem pouco tempo atrás era difícil encontrar adversários para disputar uma partida. De uns tempos pra cá, a coisa mudou bastante. Hoje, todo mundo quer jogar com a gente. Antigamente, dava um trabalho danado para tratar um jogo com os outros times. Ligava para tudo quanto é lugar, mas o pessoal tinha medo de marcar amistoso, sempre arrumava uma desculpa para não aceitar o convite. Ele acredita que a Escolinha do Consul está ajudando a acabar com a imagem negativa que muitas pessoas têm do Jardim União da Vitória.
A Escolinha do Consul participou pela primeira vez neste ano do Campeonato de Futebol das Categorias Menores, promovido pela Liga de Futebol de Londrina. Para Lourival Cruz, coordenador das Categorias Menores da Liga, o desempenho das equipes infantil e juvenil foi muito bom. Considerando que foi a estréia deles na competição, pode-se dizer que fizeram uma campanha acima da média, comenta.
Orgulhoso, o técnico João Tatu conta que quatro jogadores juvenis (Luizinho, Nilton, Erisfreire e Renato) e um infantil (Agnaldo), destaques da Escolinha do Consul, estão treinando atualmente no time da Associação Portuguesa Londrinense.
O técnicoAgnaldo Soares da Silva, 15 anos, joga como volante na equipe juvenil do Consul, embora ainda seja infantil. Diz que é a segunda vez que passa por testes na Portuguesinha e que já ficou seis meses treinando no Matsubara, em Cambará. Voltei para casa porque minha mãe pediu. Ela estava ficando muito sozinha.
Estudante da 8ª série no Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Dolly Jess Torresin (Caic da zona sul), Agnaldo é presidente do grêmio estudantil e integrante do grupo de teatro amador. Ele convida para assistir à peça que estão montando, cujo tema todos no União da Vitória conhecem muito bem: as drogas. Explica que a escolha não é por acaso: Todo mundo aqui conhece alguém que usa drogas. Junto com a bebida, que é até mais fácil de comprar, é uma das piores coisas que existem na vida.
A cola de sapateiro, o crack, a cocaína, a maconha e a cachaça fazem parte do cotidiano dos jovens do lugar. Os garotos, sobretudo na faixa dos 13/14 anos, são os mais visados pelos traficantes. A gente sempre fica sabendo o que acontece com os nossos amigos. Quando eles não experimentam essas drogas na rua, é em casa e até mesmo na escola. O pessoal tem medo porque a violência aqui é demais, tem muitas brigas, às vezes alguns tiroteios... Se não tivesse droga nem bebida, nada disso aconteceria, desabafa Agnaldo.
Já o meia-atacante David de Almeida, 17 anos, sonha em subir na vida jogando futebol. Ele, que já foi reprovado num teste no Londrina, procura seguir os passos do primo Anderson, meia-esquerda, hoje nos juniores do São Paulo Futebol Clube. Enquanto não tira a sorte grande, David vai se virando como pode. Como quase todos os companheiros de Escolinha, trabalha durante o dia e estuda à noite. Meu primeiro emprego foi como padeiro. Agora estou trabalhando como estampador numa fábrica de camisetas.
O garoto revela que o preconceito de determinada parcela da sociedade para com os moradores do União da Vitória ainda resiste. Tem gente que não contrata e nem dá uma chance quando fica sabendo de onde você é. Parece que eles não confiam. Quem mora aqui e está desempregado sabe que isso acontece direto.


