O alto índice de criminalidade é responsável pela projeção do Jardim Santa Fé, região Leste de Londrina, na mídia. Não raro, notícias sobre violência, drogas e abandono colocam o bairro nas páginas dos jornais. Para os mais desavisados o Santo Fé pode se resumir a uma região violenta e sem perspectivas. Mas um olhar mais atento descobre uma comunidade solidária em busca de melhores condições de vida.
Moradores de uma região onde situações de risco se apresentam em cada esquina, um grupo de 13 adolescentes desenvolve trabalho voluntário de prevenção da criminalidade com crianças de 3 a 15 anos. A ''Infância Missionária'' existe há quatro anos e é uma das muitas atividades que iniciaram como parte do projeto Igrejas Irmãs (das paróquias Nossa Senhora da Paz, Nossa Senhora de Lourdes e Nossa Senhora do Amparo).
Quando a ''Infância Missionária'' foi implantada pelas irmãs que integram o projeto Igrejas Irmãs, jovens de outros bairros iam ao Santa Fé para desenvolver as atividades com as crianças. Com o tempo foram criadas lideranças locais. Hoje, os próprios moradores do bairro, com idades entre 15 e 19 anos, como Muriel, Maria da Conceição, Paulina, Kathucia e outros, estão à frente da ''Infância Missionária''. Sempre com apoio das irmãs.
Muriel, 17 anos, é a líder do grupo e desde os 13 anos está envolvida com o trabalho que atende 141 crianças. Maria da Conceição, 15 anos, iniciou ainda mais jovem: com apenas 11 anos. Kathucia, 15 anos, é animadora (como são chamados os adolescentes) há poucos meses, mas chama a atenção o carinho que as crianças têm por ela.
Com dificuldades para concluírem seus estudos, convivendo diariamente com situações de risco, estes jovens descobriram novas perspectivas de vida quando decidiram trabalhar na formação das crianças. Alguns se viram encorajados a voltar a estudar. Maria da Conceição divide seu tempo entre estudar, trabalhar e as atividades com as crianças.
Muriel encontrou na Escola Municipal de Teatro sua vocação. ''Sempre falo para as crianças sobre a importância de estudar'', conta. Sua meta é seguir a carreira de atriz, mas pensa também em cursar faculdade de pedagogia.
O objetivo destes jovens é oferecer para as crianças melhores condições de vida e afastá-los dos perigos das ruas. ''Estas crianças convivem com irmãos que usam drogas, pais que estão presos. Com este trabalho tentamos mostrar que eles podem ser diferentes, podem ter sonhos, podem crescer'', afirma Muriel.
O trabalho desenvolvido pelos adolescentes não tem segredos. Através de brincadeiras, dança, música, filmes tentam passar às crianças noções de respeito ao ser humano, ao ambiente em que vivem, de cuidados com elas mesmas e despertar o interesse pelos estudos.
Ana Maria dos Santos é tia de Muriel e voluntária no bairro há oito anos. Ela afirma que já é possível ver a evolução no comportamento das crianças da ''Infância Missionária''. ''Não estão mais nas ruas, sujos, pedindo, brigando'', resume.
Muriel conta que o comportamento das crianças nas atividades desenvolvidas demonstra o crescimento delas. ''Um dos garotos não parava na escola, só brigava. Hoje é ajudante da animadora do seu grupo'', conta. A história de Mateus é um exemplo dos resultados da ''Infância Missionária'', segundo Ana Maria.
''Ele foi expulso da escola, batia nas outras crianças, não saía da rua. Dava meia-noite e sua mãe estava procurando por ele'', lembra Ana Maria. ''Hoje é uma outra criança, está na escola e as pessoas não o reconhecem.'' Muriel afirma que a maior recompensa pelo seu trabalho é o carinho das crianças e das mães.

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