Edson MazzettoAlvo fácilPedro Dias no hospital: ‘‘Me tacaram pedra’’. Escolhido
como vítima por adolescentes que já tinham queimado cachorroV.S. e M.S., ambos com 15 anos de idade, de Assis Chateaubriand (87 quilômetros ao norte de Cascavel), queimaram o idoso Pedro Dias, 62 anos, utilizando gasolina, para sentir ‘‘emoções’’, segundo relataram à polícia. Os menores disseram também terem visto na televisão outros casos de pessoas queimadas da mesma forma. Pedro está internado, com queimaduras generalizadas até de 3º grau. Apreendidos pela Polícia, os garotos foram levados no final da tarde de ontem para audiência na Justiça.
O caso ocorreu na noite do último sábado e chegou ao conhecimento da polícia no dia seguinte. O assunto vinha sendo mantido sob reserva pelas autoridades, por envolver menores - que não podem ser entrevistados ou fotografados de frente por determinação judicial.
Pedro Dias é alcoólatra e vivia perambulando pelas ruas da cidade. No final da noite de sábado, depois de beber muito, ele havia se recolhido para o quarto onde morava, nos fundos da casa de um sobrinho.
V.S. é filho de uma empregada doméstica e de um bóia-fria. M.S. é órfão e morava na casa da avó. Os dois frequentavam escola regularmente e nunca tiveram passagem pela polícia.
Segundo o delegado de Polícia de Assis Chateaubriand, Alexandre Macorin de Lima, eles contaram que às vezes defecavam e urinavam em bêbados que encontravam pelas ruas. Uma semana antes de atearem fogo no idoso, haviam queimado um cachorro com gasolina. No sábado, a avó de M.S. havia mandado o menor comprar álcool hidratado.
O combustível era utilizado para produzir sabão caseiro. O garoto foi ao posto junto com V.S., e os dois decidiram comprar também um litro de gasolina, inicialmente, para queimar outro cachorro.
Depois, acharam que seria mais ‘‘emocionante’’ atear fogo em algum bêbado, e a vítima escolhida foi Pedro Dias, que viram se dirigir ao quarto de fundos, no bairro Jardim Progresso. Quando Pedro já estava dormindo, completamente alcoolizado, os menores abriram a porta, sem dificuldades, porque era fechada apenas com uma tramela.
A seguir, acenderam um palito de fósforo para enxergá-lo, despejaram a gasolina sobre seu corpo e atearam fogo. O idoso, que se recupera das queimaduras, disse ontem que conseguiu apagar as chamas com suas próprias roupas.
Ele estava tão embriagado que voltou a deitar, e só às 8 horas do dia seguinte conseguiu levantar-se para ir a uma farmácia. No caminho, encontrou uma pessoa, que imediatamente o conduziu ao Hospital Santa Rita, onde os médicos verificaram queimaduras na cabeça, ombros, pescoço e braços.
Na enfermaria do hospital, havia ontem grande número de curiosos, atraídos depois que o fato se tornou público e por episódios semelhantes em outras partes do País, mostrados pela televisão.
Pedro Dias, paulista de Ribeirão Vermelho, nunca constituiu família, está em Assis Chateaubriand há 20 anos, e até há algum tempo trabalhava como bóia-fria. Ele diz que sempre bebe ‘‘todas’’ e não lembra ‘‘quase nada’’ da noite em que foi queimado, nem de que tenha sentido dores. Na manhã seguinte, porém, ‘‘doía muito’’.
Ele havia visto os dois menores uma vez, ‘‘quando me tacaram pedra’’. Com dificuldade para articular palavras, Pedro Dias diz que quer ‘‘justiça’’. ‘‘Porque eles têm que ter algum tipo de castigo’’, mas não sabe qual poderia ser a punição adequada.’’
Assim que deixar o hospital, ele vai para Ribeirão Vermelho ‘‘passar uns tempos’’, mas depois voltará para Assis Chateaubriand. Pedro Dias nunca soube que outras pessoas haviam sido queimadas por menores ou adolescentes, e diz não ter medo de que isto possa voltar a ocorrer consigo.
A apreensão de V.S. e M.S. ocorreu depois que os policiais descobriram o posto onde eles tinham comprado álcool e gasolina. Os menores foram levados para cela especial na Delegacia, com acompanhamento do Ministério Público.
No final da tarde de ontem, foram para a audiência com o juiz Fabrício Priotto, que deve agora decidir o encaminhamento do caso. O juiz pode decidir pelo encaminhamento dos menores a um reformatório, reeducação ou pena alternativa (prestação de serviços à comunidade).

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