Curiosidade, crença de que fumar não faz tanto mal quanto dizem, necessidade de fazer parte do grupo e de parecer mais velho do que é. Independente do motivo, o cigarro faz parte do ritual de entrada na adolescência de um número cada vez maior de brasileiros. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), 90% dos fumantes começam a fumar antes dos 19 anos de idade.
Em uma escola pública de Londrina visitada pela reportagem da Folha, os adolescentes não relutam em afirmar que ''metade da escola fuma''. Pode ser que, na ponta do lápis, o número de estudantes dependentes do tabaco não seja tão grande, mas não foi difícil encontrar nas rodas de amigos os que confessaram fumar ou já ter experimentado umas tragadas.
Lucas, de 16 anos, fuma há quase dois anos. Começou com amigos, na boate, por curiosidade. ''Continuei porque gostei da sensação'', revela. Ele conta ainda que compra os maços de cigarro com o dinheiro que a mãe lhe dá para sair com os amigos. Segundo o adolescente, ela sabe do seu vício. ''Estou pensando em parar, já tentei várias vezes.'' Lucas acredita, porém, que o cigarro ajuda a fazer amigos, principalmente nas ruas e na praia. ''A gente chega pedindo fogo, e aí já inicia uma conversa'', argumenta.
Natan, de 15 anos, também pensa em parar de fumar. ''Acho que não tem por que fumar'', diz. Mas o mais difícil, lembra, é resistir ao cigarro quando está na roda de amigos ou em festas, onde quase todo mundo fuma. ''Eu sei que não faz bem para a saúde.''
Pesquisas mostram que mais do que os pais, as mães exercem forte influência nos filhos quando o assunto é tabagismo. Letícia, de 16 anos, é um exemplo. ''Desde que eu era pequena minha mãe fuma na minha frente, e eu sempre tive vontade de experimentar. Hoje ela pede para eu parar, e eu pergunto por que ela também não pára'', diz a garota, que revela fuma ''três ou quatro'' cigarros por dia, junto com amigos.
O tabaco é a segunda droga mais consumida entre os jovens no mundo e no Brasil, perdendo apenas para o álcool, e isso, segundo especialistas, se deve às facilidades e estímulos para obtenção do produto, entre eles o baixo custo. A publicidade, que sempre associou o tabaco às imagens de beleza, sucesso, liberdade, poder, inteligência e outros atributos desejados especialmente pelos jovens também pesam. O fato do vício ser socialmente aceitável é outra preocupação.
No site www.naofume.saopaulo.net pesquisadores defendem que assim como o Ministério da Saúde tem patrocinado campanhas de orientação contra o consumo de drogas, álcool e de prevenção ao vírus da Aids, deveria pensar nos prejuízos que o cigarro causa também à população jovem. Pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo, entre os anos 93 e 97, já mostrava que o percentual de adolescentes de 13 a 15 anos que havia fumado algum cigarro na vida tinha subido de 24% para 32%.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até o ano 2025 o tabagismo matará um total de 500 milhões de pessoas da população atual. Deste total, 200 milhões corresponderão às crianças e adolescentes de hoje. ''Quanto mais cedo o indíviduo começa a fumar, mais graves serão as consequências do tabagismo, basicamente pelo fato de que esta pessoa vai fumar mais tempo durante sua vida'', lembra o médico pneumologista Denison Noronha Freire.
O médico esclarece que 75% dos adolescentes que fumam tendem a ser fumantes na fase adulta, e que quem fuma sempre terá uma doença relacionada ao cigarro. ''O fumante nunca sairá ileso. Ele sempre é mais susceptível a doenças respiratórias, sua pele envelhece muito mais rapidamente, suas condições físicas ficam prejudicadas. Basta lembrar que 90% dos casos de câncer de pulmão são decorrentes do tabagismo'', alerta Freire.
Para o médico, porém, a abordagem do adolescente fumante deve ser específica. ''Se é um jovem que se preocupa com aparência física, por exemplo, ele precisa saber que se fumar, não terá a mesma resistência para se exercitar. Em muitos casos é preciso o acompanhamento de outros profissionais, como psiquiatras e psicoterapeutas'', afirma.

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