Adolescentes fazem motim no Educandário
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de setembro de 2005
Vanessa Navarro e Betânia Rodrigues<br>Reportagem Local 
Cerca de 15 adolescentes de duas alas do Centro de Sócio-Educação de Londrina, o Educandário (Zona Sul), promoveram um motim, no final da manhã de ontem, ferindo um dos internos. O tumulto começou por volta das 12h30 e, durante uma hora, adolescentes caminharam livremente pelos telhados da instituição, sob a chuva que caía incessantemente.
Segundo o coordenador dos educadores, Ricardo Peres, um adolescente abriu vários alojamentos com uma ferramenta obtida numa ala que passa por reformas. Isso aconteceu enquanto era conduzido ao seu alojamento após atividades sócio-educativas no pátio. No meio da confusão, o rapaz tomou como refém um colega, que foi atingido na cabeça e atendido primeiramente na enfermaria e depois pelo Siate. ''Eles integram a ala de recepção que é a primeira e a mais difícil pela adaptação ao regime'', explicou.
Ora com camisas enroladas na cabeça, ora com os rostos descobertos, pelo menos, três internos caminharam de um lado para outro do prédio gritando e fazendo ameaças.
Bem próximo da rua, de cima do telhado, um adolescente de 16 anos respondeu à reportagem da Folha que estava protestando contra abusos cometidos na instituição. ''Eles nos deixam pelados, passando fome, tomando ducha gelada durante dias. Minha mãe disse que ia processar, mas os educadores falam que os 'direitos humanos' já sabem que eles fazem isso e que vão continuar'', declarou, para depois blefar: ''Se a Rone entrar aqui, vai morrer todo mundo''.
Operários que trabalham na construção do Centro de Detenção, em frente ao Educandário, viraram platéia. Eles interromperam as obras para assistir ao motim e soltaram gritos entusiasmados. Viaturas do Pelotão de Choque da Polícia Militar (PM) chegaram apenas uma hora depois de iniciada a confusão. Até então, os demais PMs optaram por não interferir.
''Constatamos que a situação não estava tão grave e apenas cercamos a área, para evitar possíveis fugas e intervir só se a situação evoluísse'', justificou o tenente Ricardo Eguedis, do 5º Batalhão da Polícia Militar. Os policiais também temiam que, caso interviessem, acabassem sendo responsabilizados pela agressão sofrida por um dos adolescentes. De acordo com Peres, a tropa de choque e os 26 policiais militares foram chamados ao local apenas por precaução.
Por volta das 14 horas, Eguedis anunciou que o motim havia sido contido e que os educadores haviam convencido os rebelados a descer do telhado. Alguns minutos depois, entretanto, os internos voltaram a subir. Uma hora depois, o motim havia terminado. Os adolescentes rebelados ficarão inicialmente isolados conforme a estratégia pedagógica adotada pela instituição.
A promotora da Vara da Infância e Juventude, Edina Maria de Paula, e o juiz Ademir Richter compareceram ao Educandário para auxiliar os educadores, que passaram a tarde limpando e avaliando os prejuízos. Edina reforçou a justificativa de Peres para o motim. De acordo com eles, não houve um motivo específico. ''Eles estão insatisfeitos porque foram privados da liberdade. Quem gosta disso?''
Para Edina, o fato não demonstra fragilidade do local nem incapacidade da equipe que foi reciclada durante a reforma do prédio. ''Os internos que participaram do motim responderão judicialmente por mais esse ato infracional.'' É o terceiro caso de confusão no local, desde a sua reinauguração, em abril.


