Lia, 14 anos, e Sandra, 13 (os nomes são fictícios), se conheceram nas ruas da Vila A, região norte de Foz do Iguaçu, ''há um tempão''. Na época, pediam esmolas e dividiam a dureza de serem crianças e de terem que conseguir lutar pela própria sobrevivência. Nos últimos minutos de quinta-feira, elas continuavam juntas. E continuavam a dividir o mesmo drama. Na via marginal a Avenida Costa e Silva, um espécie de corredor do sexo pago, descobriram a fórmula para enfrentar a realidade: fumar crack. E também descobriram juntas a prostituição, única forma de manter o vício em uma das drogas mais devastadoras consumidas em larga escala.
No local de trabalho, está tudo muito à mão. Clientes que pagam R$ 5,00 (ou R$ 10,00 para quem não quiser usar preservativo) por uma sessão de sexo oral e traficantes que vendem uma ''pedra'' a R$ 2,50. A droga é praticamente o único gasto além da alimentação. Elas negam mas as colegas contam: às vezes elas fazem o chamado programa ''quase-completo'', que não inclui sexo anal. Neste caso, cobram R$ 20,00, dinheiro usado para quitar as dívidas que aumentam do dia para noite.
Depois de saírem do carro, de satisfazerem o motorista, elas mal podem esperar. Ansiosas, correm para um beco escuro e voltam com o objeto de desejo. Sorriso de euforia. Fumam no canteiro e ao sentirem vontade de outra dose voltam ao posto. Às vezes, contam, satisfazem a ansiedade com um cigarro de maconha. Mas admitem que isto é raro, ''porque é mais difícil de achar''.
Lia diz que tem seis irmãos e que mora em Três Lagoas (região nordeste), um dos mais pobres e populosos bairros de Foz. Conta que a mãe é sacoleira em Ciudad del Este. ''Ela não sabe o que eu faço mais desconfia''. Para chegar até a Costa e Silva, ela andou cerca de meia hora e depois pegou uma carona na BR-277. Disse que não faz ponto todo dia, ''só quando precisa''. Entre tragadas de cigarro (ela pede um atrás do outro), ela conta que desta vez está devendo para um vizinho (''pego pedra com ela'') e que se ela não pagar quando chegar em casa pela manhã, ''a dívida vai aumentar''.
Sandra não quer conversa. A todo instante interrompe o diálogo. ''Acaba logo, vamos fumar'', diz pedindo o cachimbo. Ambas dizem ter parado de estudar na 5 série e que não tem vontade de voltar aos bancos escolares. Parecem não se preocupar com o futuro. (L.F.M.)

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