Uma garota de 16 anos, estudante do ensino médio, filha única, alvo de cuidados constantes dos pais e que ainda se distrai trocando as roupas das bonecas, descobre, de repente, que sua página na comunidade de relacionamentos Orkut, na Internet, foi invadida. Os comentários ingênuos, típicos das páginas escritas por adolescentes, são substituídos por conteúdo bem diferente, onde a garota se oferece para programas em uma conhecida sauna masculina da cidade. Esta história está sendo vivida por uma família da Zona Sul de Londrina, e expõe a vulnerabilidade da rede virtual.
Nas últimas três semanas a família perdeu o sossego. A adolescente não fica mais sozinha em casa já que endereço, telefone residencial e número do celular foram incluídos na página , não dorme direito, tem perdido aulas e está emagrecendo. A mãe, que prefere não se identificar, diz que vive em constante sobressalto: ''O telefone toca o dia inteiro e até de madrugada. É sempre voz de homem, perguntando pela minha filha. Não sabemos mais o que fazer.'' Além da inclusão de informações pessoais, o invasor alterou a idade da adolescente, apresentando-a como uma garota de 19 anos.
A principal preocupação da família é não saber a quem recorrer. ''Já procuramos a Polícia Federal, o Conselho Tutelar, um advogado, e ninguém sabe o que fazer, dizem que não sabem como nos ajudar. Nossa preocupação é com o futuro da nossa filha. Várias pessoas já sabem o que está acontecendo, daqui a pouco ela vai ser reconhecida nas ruas'', teme a mãe, revelando que o principal suspeito do crime é um conhecido da filha, que já teria se declarado para ela.
A família e amigos próximos já teriam feito várias denúncias no link existente no próprio Orkut, mas até agora nenhuma providência foi tomada. ''No começo eu não me preocupei muito, achando que logo a página iria ser retirada do ar, mas agora estou vendo que não é assim. Estamos vivendo um grande stress, não sabemos no quê isso pode resultar.'' A mãe conta que sempre procurou alertar a filha dos perigos da Internet. ''Sempre falei para ela não divulgar informações pessoais, por isso achamos que quem fez isso foi alguém próximo, que sabia nosso telefone e endereço.''
Segundo o delegado Demetrius Gonzaga de Oliveira, do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber) unidade da Polícia Civil especializada em delitos virtuais, com sede em Curitiba a resolução de crimes cometidos pelo Orkut é mais lenta porque o provedor está sediado nos Estados Unidos, e no contrato preenchido pelo internauta quando passa a integrar a comunidade, consta que as informações e imagens contidas em cada página são de propriedade de seus criadores.
''Como o Orkut não tem representatividade jurídica no Brasil, para conseguirmos qualquer tipo de informação precisamos encaminhar o pedido, assinado por um juiz brasileiro, para uma autoridade judiciária dos Estados Unidos, através de carta rogatória.'' Todo este trâmite burocrático, segundo o delegado, pode levar até dois anos, mas nunca fica sem resposta. Oliveira informou que se o caso envolvendo a jovem de Londrina chegar até o Nuciber a equipe vai fazer o possível para o problema seja resolvido o mais rápido possível. ''Mas não podemos falar em quanto tempo.''
O delegado recomenda que a família tenha em mãos o máximo de provas que conseguir sobre o crime, entre elas a página impressa com as informações adulteradas. Com as provas em mãos, procurar a Polícia Civil para registrar um Boletim de Ocorrência e pedir que o caso seja encaminhado para o Nuciber.
Oliveira aconselha ainda que os usuários de comunidades de relacionamentos se exponham o menos possível. ''Qualquer tipo de informação pessoal, como fotos, endereços, telefones, local de trabalho e de lazer deve ser evitada. Pode ser, por exemplo, que um criminoso busque neste tipo de comunidade informações para arquitetar um delito.''

Serviço: O Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber) fica na Rua José Loureiro, 376, 1º andar (Centro), fone (41) 3323-9448, em Curitiba.

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