Adolescente quer ser ouvido
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sexta-feira, 26 de março de 2004
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
O adolescente Moacir Silva Oliveira, 17 anos, quer ir para o Japão. Revolta da idade? De maneira nenhuma. Desenhista autodidata, ele mantém o firme propósito de parar no outro lado do mundo para aprender a desenhar mangás e estudar computação gráfica. Sem recursos, ele estuda sozinho a língua japonesa e vai praticando a arte dando aulas de desenho para os colegas no Colégio Estadual Héber Soares (Zona Sul de Londrina), onde também faz parte do grêmio estudantil.
Moacir estava entre os mais de 100 participantes de uma oficina de Hip Hop realizada ontem durante o 1º Seminário de Atenção à Saúde Integral da Adolescência e Juventude Brasileira, que termina hoje. Como adolescente, sua principal reclamação é que os adultos de hoje ''não escutam os jovens'', crítica feita também por especialistas no assunto.
Moacir cresceu no Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo que é um dos mais violentos daquela metrópole, mas mudou-se para Londrina há três anos. As oficinas de artes, música e dança que ele tinha lá não encontrou por aqui e decidiu, ele próprio, promover cursos em sua escola. Moacir diz que é difícil conseguir adeptos mas garante que vai continuar tentando. Ele acredita que muito da revolta dos adolescentes é porque os ouvidos dos adultos se fecham quando a voz sai da boca de um jovem. ''Falta os adultos escutarem a gente. Eles tomam as decisões por nós em várias questões'', reclamou.
O puxão de orelha do garoto também foi dado pela pediatra portuguesa e vice-presidente da Associação Internacional de Saúde para Adolescentes, Helena Fonseca, que participa do seminário promovido pela Associação Brasileira de Adolescência (Asbra). De acordo com ela, o jovem atual precisa de pessoas que entendam suas angústias, defendam seus direitos e promovam seu bem estar de forma integral. Ela admite ''grandes diferenças'' entre os países desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento, como o Brasil, mas diz que a realidade das dificuldades dos adolescentes é mundial. ''Enquanto nos países mais pobres existem necessidades básicas, nos mais ricos há toda uma realidade preocupante, como as drogas e a falta de emprego e de projetos de vida.''
Helena avalia que as políticas públicas precisam não só combater os fatores de risco mas atuar para a proteção do adolescente, ''que pode ser por, exemplo, ter um adulto significativo em sua vida''. Ela explica que a família moderna está deixando os filhos sem supervisão e a escola também não dá conta do recado. ''A sociedade é competitiva, materialista, e perdeu o gosto para conversar e interagir'', destacou. Para Helena, a mudança só será alcançada com atenção sem discriminação, escola e espiritualidade.
O psiquiatra e comunicador Jairo Bouer completa o coro. ''É importante perceber que a adolescência é uma fase de transformações rápidas e a família precisa estar presente. Fatores de risco existem para todos e um bom fator de proteção é uma família estruturada, que dialoga e ouve os filhos'', apontou.


