Érika Pelegrino
De Londrina
Crisleane Aparecida Guimarães Norbiato teve uma infância marcada por dificuldades. Nascida em Apucarana em 18 de fevereiro de 1984, filha da manicure, Maria Rita Guimarães, 45 anos, nunca teve contato com o pai. Ela o viu apenas três vezes, em situações não muito agradáveis. A primeira vez foi aos três anos quando ele bateu na porta de sua casa, querendo levá-la para morar com ele.
‘‘Sem minha mãe não vou a lugar nenhum’’, disse a garota. Aos seis anos, quando estava em um ônibus circular com a mãe viu o pai dentro de um bar bebendo. ‘‘Foi uma decepção’’, lembra. A última vez que o viu foi há dois anos no Fórum de Apucarana (onde mora), quando a mãe o levou a Justiça.
A falta de um pai era sentida em datas como o Dia dos Pais, quando as amigas da escola faziam presentes ou quando as mesmas amigas iam para escola acompanhadas do pai. ‘‘Eu ia sozinha porque minha mãe sempre trabalhou muito para poder sustentar a casa’’, conta.
Da falta de carinho e afeto ela não tem lembrança. ‘‘Minha mãe sempre supriu esta parte. Mesmo trabalhando muito, quando chegava em casa a gente grudava uma na outra’’, lembra. ‘‘Ainda hoje é assim. Somos muito amigas’’. As restrições materiais, por sua vez, sempre estiveram presentes e pioraram quando a menina tinha oito anos e a mãe ‘‘arranjou um padrasto’’ para a filha.
‘‘Ele gastava todo o dinheiro que minha mãe ganhava, bebendo’’, conta. ‘‘Nesta época passamos fome. Eu chegava em casa e via minha mãe chorando, não tinha nada para comer’’. A pequena Crisleane não aguentava ver a mãe naquele desespero e resolveu ajudar. Com oito anos começou a fazer pão de queijo para vender.
Ajudar já era uma característica da menina que se manifestava desde os três, quatro anos, segundo a mãe Maria Rita. ‘‘Ela pegava roupas e brinquedos, até aquelas roupas que ainda serviam, e dava para as crianças carentes’’, lembra Maria Rita. Por isso, a mãe não estranhou quando a filha, com apenas oito anos, decidiu ajudá-la.
Com o dinheiro que conseguia comprava mantimentos que faltavam em casa. ‘‘Na volta do supermercado eu passava nas lojas de 1,99 e pedia brinquedos quebrados para doar para as crianças no dia das crianças’’, conta. A menina colocava tudo numa sacola, amarrava na sua bicicleta e ia para casa, feliz da vida, com os mantimentos e os brinquedos quebrados.
Ela passava horas consertando carrinhos e bonecas que ia juntando para distribuir no dia 12 de outubro. Depois de um ano fazendo e vendendo pão de queijo, a situação começou a melhorar. A mãe largou o padrasto, ‘‘graças a Deus’’, e o pouco que sobrava do dinheiro da venda de pão de queijo, era usado na compra de refrigerantes e de ingredientes para cachorro-quente que Crisleane distribuía junto com os brinquedos doados. Até hoje, no Dia da Criança, a adolescente faz as suas doações.
Mãe e filha já não passavam mais tantas necessidades, mas presente de Natal ainda era luxo. Ela lembra que o sapato que colocava na janela na noite de Natal, sempre amanhecia vazio. Rindo, ela lembra que o sapatinho ‘‘criava pó’’. Quando descobriu que Papai Noel não existia, pensou nas milhares de crianças que, como ela, ficavam esperando por um Papai Noel que nunca chegaria. Crisleane, não pensou duas vezes, intensificou suas arrecadações para atender mais crianças, pelo menos no Dia das Crianças.
A infância difícil, longe de deixar resquícios de amargura fortaleceram o sentimento de solidariedade em Crisleane. ‘‘Eu tinha tudo que precisava, mas não tinha tudo que queria. Mas muitas crianças não tinham nem uma coisa, nem outra. Não era justo’’, afirma demonstrando indignação.
Sem se deixar abater, sempre corria atrás de uma forma de realizar seus sonhos e de ajudar os outros. Foi assim quando começou a desejar uma festa de 15 anos. ‘‘Eu tinha 12 anos e comecei a procurar emprego, mas devido à pouca idade não conseguia nada. Então passei a fazer compotas, mas não deu muito certo’’, recorda.
Quando faltava um mês para completar 14 anos, um senhor, dono de uma loja de roupas, que sempre a ajudava nas suas arrecadações, resolveu dar-lhe o emprego. ‘‘Ele me falou para tirar a carteira de trabalho e assim que fizesse 14 anos poderia começar a trabalhar para ele.’’ Durante um ano a adolescente guardou dinheiro para sua festa de 15 anos, que realizou em fevereiro deste ano. Do jeito que sempre sonhou
Como as notas na escola começaram a cair – a garota estudava das 6h30 às 12h30 e trabalhava das 13 horas às 18 horas – trocou o trabalho fixo pela venda de bombons feitos por uma freguesa de sua mãe. ‘‘Eu não podia ficar sem trabalhar porque o dinheiro faz falta em casa’’, justifica. Com o dinheiro dos bombons, vendidos em escolas, padarias e restaurantes, Crisleane ajuda em casa, paga parte da mensalidade do Colégio Canadá (ela ganhou meia-bolsa), e guarda o restante para a festa do Dia das Crianças que promove todos os anos.
A adolescente quer cursar Direito e ‘‘quem sabe conseguir ganhar muito dinheiro’’ para tirar do papel alguns projetos que fez para resolver problemas sociais. A seca no Nordeste, a falta de moradia, a saúde pública, o desemprego, a Febem, são as grandes preocupações da adolescente de 15 anos.
‘‘Toda vez que chove em Apucarana eu peço a Deus que mande um pouco de chuva para lá (Nordeste). Como podemos deixar aquelas pessoas morrendo por falta de água? Os empresários podiam ajudar a criar um sistema de irrigação que ajudasse o Nordeste’’, afirma.
A solução para os menores internados na Febem, na opinião de Crisleane, começa com tratamento digno. ‘‘Não é possível receber tantos maus-tratos e sair de lá recuperado’’, afirma. Cursos profissionalizantes dariam uma maior expectativa de reintegração na sociedade. ‘‘Eles sairiam de lá com mais possibilidades de conseguir um emprego. Apanhando e sendo tratados como se não fossem gente, só ficam mais revoltados e ao sair de lá vão querer matar mais gente’’, conclui.
Ano passado a adolescente viu um senhor morrer de enfarte na portaria de um hospital de Apucarana. Ficou chocada e escreveu uma carta para o presidente Fernando Henrique Cardoso pedindo a construção de um hospital. Mas a preocupação da menina não era com Apucarana. ‘‘Aqui tem problemas, mas o hospital teria que ser construído em São Paulo ou no Rio de Janeiro onde a situação é muito mais grave’’, acredita.
Com a lógica da inocência, Crisleane afirma também que os hospitais particulares teriam que fazer sua parte pela saúde da população. ‘‘Nestes hospitais têm tantos quartos vazios, e nos hospitais públicos as pessoas morrem nas filas. Se a pessoa trabalha com saúde tem que se preocupar primeiro em salvar vidas e depois com o dinheiro’’, entende.
Os catadores de lixo também levaram a adolescente a colocar no papel um projeto para melhorar a situação deles. A idéia é trocar latas, plásticos e papéis por cestas básicas e por prêmios – como bicicletas, televisores, e outros que poderiam ser conseguidos como doações. ‘‘Estaríamos colaborando para diminuir a poluição no meio ambiente e ajudaríamos as pessoas que trabalham o dia todo catando este tipo de material para, no final da tarde, comprar apenas dois pães’’. Ela acredita: ‘‘Daríamos uma remuneração digna para estas pessoas.’’
Uma grande fábrica, imagina Crisleana, poderia resolver o problema de moradia em Apucarana, pelo menos. Como? Simples: gerando emprego para os moradores de favela e revertendo todo o lucro para a construção das casas. ‘‘As pessoas receberiam toda a alimentação e trocariam seu trabalho pela construção das suas casas. Depois de concluídas, receberiam salários’’, afirma. Crisleane tem esperança de um dia ainda poder construir esta fábrica.
Recentemente, ela e a amiga Heloísa Haguio entregaram brinquedos, doces, alimentos e roupas para creches de Londrina e Apucarana, como presente de Natal. Nos próximos meses, também com a ajuda da amiga, pretende arrecadar livros para distribuir em escolas públicas e bibliotecas.
O maior sonho desta adolescente não poderia ser outro: ver o fim da injustiça social. ‘‘Parece um sonho bobo, por ser praticamente impossível. Mas é muito doloroso ver tantos passando necessidades e outros que não sabem onde colocar tanto dinheiro’’, afirma. ‘‘Se eu pudesse, mudava o mundo’’.
Crisleane ainda tem esperança de que outras pessoas se mobilizem para tentar resolver os problemas sociais. ‘‘Quem sabe assim não conseguimos no futuro um mundo sem tantas favelas e guerras’’.

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