A adaptação à rotina de uma casa, com regras e horários, foi a principal dificuldade sentida por um adolescente de 16 anos, que passou a frequentar as casas-abrigo mantidas pelo município há cerca de cinco anos. ''Nunca tinha tido isto na vida'', conta o jovem, que também enfrentou o desafio de se livrar do vício do crack. Foram várias idas e vindas, até ''cair a ficha''. O caminho percorrido pelo garoto foi tortuoso. Abandonado pela mãe, viveu com o padrasto alguns anos, mas na maior parte do tempo seu endereço eram as ruas. Um irmão mais novo também é atendido pelo município, embora ambos tenham pouco contato.
Atualmente ele mora na casa-abrigo voltada à preparação de meninos e meninas para a reinserção social, uma espécie de último estágio de um caminho longo e de muito aprendizado. ''Aqui eles são preparados para o retorno à vida independente ou para o retorno à família, que pode ser a família de origem ou uma família substituta'', explica a mãe social Antonia Comazi Lhewicheski. O adolescente, que chegou a ser apreendido algumas vezes por indisciplina e envolvimento em motim, já trabalha no comércio há oito meses e se prepara para enfrentar o mundo com a responsabilidade que adquiriu nos últimos anos.
''Se eu não tivesse vindo para cá, não sei o que teria sido de mim, mas acho que estaria 'feio'. Aqui aprendi a dar mais atenção para os outros, a ouvir, e também a tratar bem as pessoas'', revela. Sua teoria para os casos de crianças e adolescentes que não conseguem abandonar as ruas é simples: falta de desejo de viver outra realidade. ''Tem umas pessoas que querem mudar de vida, outras não''.
No final do ano passado o adolescente descobriu o paradeiro da mãe e, mais recentemente, que possui parentes na região. ''Isso mudou muita coisa, porque antes a sensação que eu tinha era de estar sozinho. Hoje sei que tenho uma família.'' Prestes a completar 17 anos, o jovem cursa o primeiro ano do Ensino Médio e começa a projetar seu futuro. ''Não sei direito, mas penso em ser arqueólogo''. (S. L.)

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