ADOLESCÊNCIA CONFINADA - Meninos que fazem e sofrem violência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de janeiro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Onde se perdeu a infância das crianças que praticam crimes? Esta é a pergunta que cada cidadão londrinense faz, diante dos números que denunciam a violência crescente na cidade. Principalmente tendo em vista a violência envolvendo menores, que, de acordo com a opinião da maior parte das autoridades policiais do município, já respondem pela autoria de mais de 80% de crimes como homicídios e latrocínios, além de também serem vítimas da maioria das ocorrências desse tipo.
Um convite feito pela promotoria de Infância e Juventude de Londrina abriu para a reportagem da Folha a possibilidade de obter informações que pudessem, pelo menos em parte, responder à pergunta citada. Um repórter do jornal poderia, assim que resolvidos os trâmites legais, passar uma semana trabalhando como educador social no Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi). Em busca destas informações e da possibilidade de que um material esclarecedor sobre a rotina dos internos de uma insituição para ressocialização pudesse ser produzido, o convite foi aceito.
Uma semana de convívio com os 38 internos do Centro - a maioria adolescentes entre 12 e 18 anos, alguns com 19, 20, 21 anos - é pouco para se descobrir qual é o motivo para cada um dos crimes cometidos por eles. São infrações que variam de gravidade da mesma forma que varia o humor de uma pessoa com esta idade. Furtos, roubos, roubos qualificados, sequestros, latrocínios (roubo seguido de morte), homicídios, estupros.
Apesar da pouca idade, o currículo quase sempre é extenso. À pergunta ''por que você foi preso?'', nunca é dada uma única resposta. A pior sensação, no entanto, não é a de correr riscos em um lugar como este. É ver rostos comuns, de crianças que poderiam ser vistas na escola ou em uma praça, dentro de uma cela, algemadas, fazendo ameaças de morte porque não receberam dignidade.
Não fossem as grades que compõem a maior parte do cenário que ilustra esta reportagem, o ambiente no Ciaadi lembraria facilmente o de uma escola de ensino fundamental. Brincadeiras e zombarias entre os adolescentes e educadores são comuns, ajudando a manter um clima de relativa tranquilidade no Centro. As exceções restringem-se a poucos menores, que por motivos desconhecidos não conseguem manter relacionamentos socialmente aceitáveis com qualquer pessoa. No entanto, as ameaças convergem de todos os pontos: qualquer um é capaz de ofender qualquer outro, e, sempre que julgar necessário, o faz.
O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe a imprensa de qualquer tipo de associação de um menor com o crime. Por isso, todos os nomes usados na série de reportagens sobre a rotina do Ciaadi serão fictícios. Devido às acusações, reclamações e reivindicações colocadas pelos funcionários do Centro, os nomes dos educadores e professores da instituição também serão trocados, a fim de que pedidos, ora justos, ora exagerados, sejam transformados em justa causa para demissões.
Ao fim da semana de trabalho, é impossível sair do Ciaadi sem remorsos. Fica a sensação de que alguma coisa pode ser feita, pelo menos por um dos adolescentes. Se são produtos de uma sociedade excludente ou se lhes falta caráter, é impossível definir. O que pôde ser visto é que todos eles são vítimas que, por vezes, pedem um afago e ouvidos, e, em outras ocasiões, exigem algemas e gritos. São vítimas capazes de roubar uma carteira ou de apertar a garganta de uma pessoa, segundo eles próprios.


