ADOLESCÊNCIA CONFINADA - 2 parte 'Já estou ficando louco de ficar aqui dentro'
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
As atividades no Centro de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) começam cedo, por volta das 7 horas. Aos menores é servido um café da manhã, com leite e pão. Tudo dentro das celas, já que o refeitório foi parcialmente destruído durante um princípio de rebelião registrado no final de novembro (veja matéria nesta página). Terminado o café, é hora de tomar banho para o início das atividades.
No período de férias escolares, os adolescentes não têm muito o que fazer no Centro. Obedecendo a critérios que de certa forma são estabelecidos pelos próprios menores, eles são divididos em grupos e levados das celas para o pátio, de cerca de 200 metros quadrados, ou para salas, também gradeadas, onde podem confeccionar tapetes, pulseiras ou assistir a filmes. Quase toda a manhã é reservada para estas atividades.
No pátio, o futebol é, invariavelmente, o esporte praticado por eles. Nas salas, todos os tapetes levam inscrições de cunho religioso ou com juras de amor à companheira ou a familiares. Pulseiras, feitas com pedaços de plástico e linha de costura, carregam as mesmas mensagens. O material para confecção ganha status de moeda no Ciaadi: frequentemente os meninos pedem aos educadores que um pouco de linha enrolada em um papel seja levado para outra cela, a fim de que sejam quitadas pequenas dívidas formadas no dia-a-dia, ou mesmo como simples forma de agradecimento por algum favor realizado. Algumas das pulseiras são dadas como ''presa'' (presente), aos educadores ou a outros menores. Qualquer favor feito a eles é recompensado. ''Esse educador é 'sangue bom', conversa com a gente'', dizem.
As turmas são trocadas para que todos participem de todas as atividades, o que acontece até às 11 horas. Os menores são recolhidos às celas, onde devem tomar mais um banho antes do almoço. Surge mais uma moeda: a sobremesa, que dificilmente permanece na cela de destino inicial, pois é trocada por linha ou usada como pagamento pelo time que perdeu no futebol de minutos atrás. ''Educador, faz favor, passa lá pro piá do 'xis' (como eles chamam as celas) da outra ala''. Suco, chamado de ''porvinha'', por sua vez, é negociado diretamente com os educadores. ''Manda mais um choro aí, meu. Minha caneca é menor'', é a justificativa mais comum. Mais um gole na caneca, mais uma pulseira no bolso.
Improvisada uma colher com a tampa do marmitex, começa a refeição. Poucos reclamam da qualidade da comida, que apresenta bom aspecto. ''Não é ruim, mas também não tem muito gosto não'', falam de boca cheia, aproveitando para soprar um pouco da farofa no companheiro de cela.
Os intervalos entre as atividades e o almoço são preenchidos com 'serviços' que os educadores prestam aos menores. Muitos aproveitam o tempo para lavar as celas e precisam de rodinhos para puxar a água. ''Educador, traz o rodinho, por favor!''. ''Catataus'', ou recados escritos em pequenos pedaços de papel, também são frequentemente distribuídos, além das linhas para confecção de pulseiras e dos próprios produtos já terminados. Tudo passando pelas mãos dos educadores.
Almoço servido. As celas são trancadas, assim como as portas de acesso às alas. Hora dos educadores almoçarem. O silêncio volta ao interior do Ciaadi, à espera da tarde, quando tudo se repete. ''Já estou ficando louco de ficar aqui dentro'', diz Fábio, 17 anos, apreendido por envolvimento com furtos.


