Adoção ilegal se transforma em drama
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domingo, 24 de novembro de 1996
Vânia Moreira 
UMUARAMA - Sem condições de criar os quatro filhos, a bóia-fria desempregada Joana Dark Nascimento, 36 anos, moradora de Serra dos Dourados, distrito de Umuarama, decidiu dar um deles, o recém-nascido L.M.N., para uma vizinha. Não poderia ter feito escolha pior.
A vizinha, a dona-de-casa Ana Maria Antonelli, 41 anos, é alcoólatra e mora num barraco de dois cômodos com o marido doente, José Antonelli, 67 anos. Ele está paralisado por causa de um derrame cerebral. O casal tem um filho legítimo de 20 anos, o único na família que trabalha, quando encontra serviço.
Eles também criam uma menina de 11 anos, adotada e registrada ilegalmente no nome deles. Mesmo com tantos problemas, Ana Maria acolheu o bebê. Hoje com dois anos e cinco meses, L.M.N. já foi internado várias vezes com desnutrição e apresenta sinais de retardo mental.
O menino L.M.N. é uma das milhares de crianças adotadas ilegalmente no País e que acabam indo parar em famílias com menos condições de criá-las do que os pais biológicos. Joana Nascimento poderia ter entregue o filho ao Juizado de Infância e Juventude, que se encarregaria de encontrar uma família preparada para adotá-lo.
O caso só chegou ao conhecimento da Justiça porque Ana Maria tentou legalizar a adoção acreditando que isto ajudaria a aposentar o marido doente. A criança foi recolhida a uma entidade assistencial, está recebendo acompanhamento médico e será encaminhada para adoção legal.
Doar o filho é decisão extrema que a maioria absoluta das mães toma por não ter outra alternativa. O motivo é sempre o mesmo: falta de condições financeiras. Geralmente são mulheres solteiras, desempregadas, prostitutas, sem parentes diretos ou de família extremamente pobre.
Abandonadas pelo pai da criança, elas não têm onde morar, não tem emprego, nem com quem quem deixar a criança para trabalhar. Muitas optam por entregar o filho a famílias conhecidas, na esperança de reavê-lo quando estiverem em melhor situação. Algumas oferecem a criança a quem esteja disposto a abrigá-las durante a gravidez e o parto, custear as despesas do hospital ou em troca de qualquer outro tipo de ajuda.
Há cinco meses, Neuza Alves dos Santos, 18 anos, entregou o filho D.A.S., de um ano e meio, para uma família de Douradina (85 quilômetros a norte de Umuarama), depois de tentar viver com a criança em bares de prostituição da cidade. Hoje vivendo em Curitiba com a mãe - que também não quer o neto - manteve a decisão de doar o filho e desistiu do pátrio poder perante a Justiça.
O casal que ficou com D.A.S., o motorista Vagner Campos e Maria Marlene, não tentou regularizar a situação. Como não estavam habilitados para adotar e havia outros casais aptos na lista de espera, o casal perdeu a criança. D.A.S. não demonstrou apego à nova família. Além disso, a mãe sabia onde ele estava, poderia se arrepender futuramente e querê-lo de volta, criando uma situação delicada.
As pessoas que adotam ilegamente uma criança correm o risco permanente de perdê-la. A qualquer momento, a mãe pode exigir o filho de volta ou o Juizado da Infância e Adolescência transferir a criança para outra família substituta, se constatar que ela não está bem.


