Marcos NegriniPreparativosAdébora Alves da Silva, uma das representantes do BrasilA trabalhadora rural Adébora Alves da Silva, de 15 anos, embarca hoje para a Europa com objetivo nada parecido ao da maioria dos estudantes de bom poder aquisitivo, que viajam por lazer ou para conhecer outras línguas e culturas. Por cerca de 40 dias, Adébora - que capina, planta rama de mandioca e colhe algodão no município de Amaporã (32 km de Paranavaí) - e outras duas crianças que trabalham no corte de cana no Estado de Pernambuco e de sisal, na Bahia, vão representar o Brasil na manifestação contra a exploração do trabalho infantil.
Na Europa, as crianças trabalhadoras do Brasil vão se juntar a menores de diversos países para a Marcha Global Contra Exploração do Trabalho Infantil, que começa em Portugal e termina em Genebra, no dia 4 de junho. Nesta data, será realizada uma reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os manifestantes querem pressionar as autoridades para a erradicação do trabalho infantil em todo o mundo.
Segundo o ex-presidente (o atual, Manoel José dos Santos, toma posse hoje) da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Francisco Urbano Araújo Filho, a exploração do trabalho infantil está aumentando até nos países desenvolvidos. Adébora, que começou a trabalhar com oito anos na roça, sabe o que significa a exploração infantil. Todo dinheiro que ganha - R$ 7,00 ao dia - ela deixa com a mãe que compra roupas e alimentos para os 12 filhos.
As mãos exibem os calos produzidos pela enxada. ‘‘O trabalho mais difícil é a colheita de feijão, porque a gente tem que ficar agachada e dá dor nas costas. Mas a capina também dá muito calo nas mãos’’, diz. O pai de Adébora, o aposentado Braulino Alves da Silva, 64 anos, também começou a trabalhar com oito anos e ainda faz algum trabalho na roça para ajudar no orçamento.
Adébora não fala inglês, mas jura que ‘‘arrasta’’ o espanhol. Na Europa, vai falar sobre o seu trabalho em Amaporã e lutar pela erradicação do trabalho infantil. ‘‘Parece que existe um movimento para que os menores sejam registrados em carteira, mas não queremos isso porque senão a exploração vai continuar’’, denuncia. Como as demais crianças do Brasil, Adébora promete lutar para que o trabalho infantil seja erradicado. ‘‘Queremos que a criança tenha o direito de brincar e estudar e não tenha mais que trabalhar’’, explica.
A viagem para a Europa não será a primeira de Adébora para fora do País. Em 1996, ela participou do Encontro Nacional dos Menores Trabalhadores Rurais, em Brasília (DF), promovido pela Contag. Na capital brasileira, Adébora foi a escolhida para falar com o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e entregou a ele uma carta pedindo ajuda do governo para a erradicação do trabalho infantil. ‘‘Até hoje ele não nos ajudou’’, reclama. No mesmo ano participou de uma marcha na Índia.

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