Uma das instituições mais conhecidas em Londrina pelo trabalho junto a travestis, gays e garotos de programa fechou suas portas. A ONG Adé-Fidan (que em nagô significa homem de fino trato) trabalhava há cinco anos em Londrina e chegou a receber recursos da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Ministério da Saúde e programas municipal e estadual de DST/Aids. De 2001 a 2004 foram recebidos R$ 60 mil por ano para as ações de prevenção, auto-estima e profissionalização deste público, nos projetos Casa de Vivência Sara Santana e Boa Noite Cidadão.
O principal motivo do fechamento, segundo o ex-coordenador e idealizador do projeto, Edson Bezerra, foi a falta de disposição das pessoas em participar quando os recursos foram descentralizados do governo federal e passaram a ser disponibilizados pelo Estado e município, através do Plano de Ações e Metas (PAM), diminuindo drasticamente (cerca de R$ 8 mil por ano). ''Quando nos foi dada a responsabilidade de começar a trabalhar para levantar recursos, muitos não quiseram. A fonte secou e as pessoas não queriam fazer esforço. Daí não tínhamos como manter aquela estrutura.'' Segundo Bezerra, uma das formas de levantar recursos pela própria entidade seria a venda de um tempero feito com a combinação de várias ervas desidratadas, que seria produzido na cozinha piloto montada pelo governo federal.
A Adé-Fidan atendia, segundo Bezerra, 2.812 gays, 57 garotos de programa, 75 travestis e mais de mil heterossexuais (a maioria adolescentes) que procuravam a entidade para buscar preservativos. ''Nossa preocupação sempre foi oferecer a estas pessoas condições para que o sexo fosse feito da maneira mais segura possível, mas agora não sei como está a realidade. Será que a receptividade por parte do serviço público está sendo boa? Será que os profissionais das Unidades de Saúde estão preparados para trabalhar com um público difícil, que muitas vezes não se relaciona bem nem com a própria família?''
Bezerra trabalhou durante 18 anos em projetos de prevenção de aids e diversidade sexual em Londrina. Os trabalhos realizados pela ONG resultaram na primeira casa de vivência de travestis da região Sul do País; na primeira lei municipal contra a discriminação; e na implantação em Londrina do Projeto Brasil Sem Homofobia, pela primeira vez em uma cidade do interior. ''Tem hora que fico pensando e não consigo acreditar que um projeto tão grande, com uma estrutura tão respeitada, tenha acabado. Este é um sinal de como as pessoas ainda são dinheiristas e não conhecem o significado da palavra voluntariado.''
A gerente do Programa Municipal de DST/Aids e Tuberculose, Rosângela Alvanhan, informa que o público antes atendido na Adé-Fidan tem acesso a todas as Unidades Básicas de Saúde e ao Centro de Orientação e Apoio Sorológico (COAS), que funciona no Centro de Referência Dr. Bruno Piancastelli Filho, no Centro. O atendimento também foi direcionado para o Centro de Referência e Direitos Humanos das Pessoas GLBTTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transgêneros e Transsexuais), que funciona no Núcleo Londrinense de Redução de Danos. ''Não existe mais o trabalho como era feito na Adé-Fidan, mas o município está estruturado para atender este público'', garante.

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