Acusados falam do escândalo do leite
O delegado Joaquim de Melo, do 4º Distrito Policial de Londrina, encerrou ontem a fase de depoimentos do inquérito policial que investiga a suposta tentativa de extorsão praticada por três ex-assessores parlamentares da Câmara de Vereadores. O caso ficou conhecido como escândalo do leite.
A extorsão teria sido praticada contra diretores da Cativa e também da cooperativa Central Norte, de Apucarana. Melo pretende enviar o inquérito na próxima segunda-feira ao Ministério Público, que terá 15 dias para decidir se oferece ou não denúncia à Justiça contra os ex-assessores, para que seja instaurado processo criminal.
Ontem de manhã, o delegado ouviu Fredemax Mota - apontado como assessor do suplente de vereador Jaci Aguiar (PDT) - e José Gavilan, ex-assessor do vereador Beto Scaff (PSDB). Aristeu Rodrigues, ex-assessor de Alvair de Souza (PL), depôs na quarta-feira mas, assim mesmo, compareceu ontem ao distrito para prestar solidariedade aos colegas. Nos depoimentos, os três reafirmaram que, em momento algum, houve tentativa de suborno contra a Cativa. E que, conforme afirmaram, o caso só foi criado pela cooperativa para desviar a atenção da imprensa para o problema principal: a péssima qualidade, segundo eles, do leite produzido pela Cativa.
O caso começou há cerca de dois meses quando os diretores Osmar Buzinhani e Alfredo Carvalho, da Cativa, acusaram Mota, Rodrigues e Gavilan de pedir R$ 80 mil (R$ 30 mil da Cativa e R$ 50 mil da Central Norte) para que não fosse divulgado o resultado de laudos do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, que reprovava o leite tipo C das cooperativas.
Os diretores da Cativa chegaram a apresentar uma fita cassete que teria registrado o momento em que houve a tentativa de extorsão por parte dos ex-assessores, mas o Instituto de Criminalística de Londrina não conseguiu transcrever a conversa devido à péssima qualidade da gravação.
Nosso receio era de que a fita fosse montada, declarou ontem Fredemax Mota, pouco antes de entrar para prestar depoimento. Para ele, as denúncias de diretores da Cativa são inconsequentes e questionam não só a lisura do trabalho de análise feito pelo Instituto Adolfo Lutz como também o próprio Ministério Público, que acompanhou a coleta de amostras de algumas marcas. Além disso, diz Mota, a acusação pesa também sobre pontos de venda tradicionais da Cidade, como por exemplo os supermercados Viscardi, da avenida Bandeirantes, e Muffato, da Juscelino Kubistcheck (ambos na área central), onde as amostras foram coletadas.
O que importa não é se produto está ruim no ponto de venda, mas a qualidade do leite que a população está consumindo, diz. Mota destaca ainda que contaminação por coliforme fecal - encontrada no leite da Cativa - normalmente acontece ainda quando o leite é industrializado, e não no ponto de venda, como foi alegado pelas empresas. Portanto, a argumentação de que o leite foi contaminado depois que saiu da cooperativa, segundo ele, não é verdadeira.
Fredemax Mota questiona também que, desde que o caso foi divulgado, até agora a Cativa não tomou nenhuma providência para melhorar a qualidade do leite produzido pela empresa. A Cativa só apresentou laudos, coisa que eu posso pedir em qualquer dia e a qualquer hora. Por isso pedimos uma representação criminal porque a empresa está expondo a vida vida da população. Para os acusados, a polêmica serviu apenas para que a Cativa pudesse mostrar força política, além de tentar direcionar o trabalho da Justiça.
Além disso, aponta Fredemax Mota, o caso pode ter sido levantado também para abafar o escândalo da Comurb, que até então ocupava o noticiário local. Pode ter havido direcionamento, diz Mota, lembrando que o presidente da Câmara, Adalberto Pereira (PFL), recebeu os laudos do Adolfo Lutz 15 dias antes do caso ser noticiado pela imprensa e, mesmo assim, não tomou nenhuma providência. Ele tinha no mínimo que ter comunicado a Vigilância Sanitária.
Aristeu Rodrigues admitiu que, quando tomou conhecimento dos laudos do Adolfo Lutz, procurou o presidente da Cativa, Osmar Buzinhani. Liguei preocupado, para ajudá-lo, disse. Para Rodrigues, que em seguida apresentou Fredemax aos diretores da Cativa, a atitude da cooperativa em denunciar a suposta tentativa de extorsão foi covardia. Aristeu Rodrigues informa ainda que a contaminação do leite da Cativa representa falta de competência administrativa da empresa, que necessitaria ter, segundo ele, um departamento técnico eficiente. Por isso, os produtores de leite deveriam trocar toda a diretoria da Cativa, afirma o ex-assessor parlamentar.
Aristeu Rodrigues e Fredemax Mota também reafirmaram que os diretores da Cativa insistiram muito para que os laudos do leite tipo C não fossem divulgados. Mota comenta ainda: Se fosse para corromper alguém, teria que comprar no mínimo os 21 vereadores da Câmara, o Ministério Público e o Instituto Adolfo Lutz.
Tanto Rodrigues quanto Mota também consideraram inconsequente a atitude do delegado do Ministério da Agricultura do Paraná, Mário Bezerra Guimarães. Ele deu uma de garoto-propaganda do leite da Cativa, disse. Guimarães esteve semana passada em Londrina, foi à sede da Cativa e garantiu que o leite produzido pela cooperativa é inspecionado pelo órgão federal. Na opinião de Bezerra, se houve contaminação do leite, ela aconteceu fora da empresa.
Além do inquérito policial, a Câmara também instaurou uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apura o escândalo do leite. Todos os envolvidos no caso estão sendo ouvidos novamente pela comissão, que deve encerrar os trabalhos na próxima quarta-feira.Milton DóriaVersãoFredemax Mota e Aristeu Rodrigues, na saída do 3º DP: acusados de tentativa de extorsão criticam cooperativaLúcio Horta





