O excessivo número de processos acumulados na Delegacia de Polícia de Guarapuava está atrasando o depoimento de suspeitos e testemunhas no inquérito que investiga a invasão do assentamento do Incra na Fazenda Pedra Branca, em Laranjal (140 km a oeste de Guarapuava), em 27 de novembro de 98, quando duas pessoas foram assassinadas. O fazendeiro Antônio Martins, suspeito de ter comandado a invasão do assentamento, foi intimado a depor no início desta semana.
Mas o delegado Sidnei Martins Leal, que preside o inquérito, tem em suas mãos cerca de 800 processos para serem concluídos e ainda não teve tempo para ouvir Martins. ‘‘Somos em dois delegados aqui em Guarapuava; cada um tem cerca de 800 inquéritos para concluir. O que é que eu posso fazer?’’, reclamou o delegado.
Durante a invasão do assentamento foram assassinados o sem-terra José Rodrigues, 17 anos, e o pistoleiro Nélson Pinto Guimarães, 22 anos. No local das mortes a polícia encontrou cartuchos de espingarda cartucheira calibre 28. O delegado Leal lembrou que seus investigadores ainda estão procurando um jagunço conhecido por ‘‘Orestes’’, que teria testemunhado a morte do pistoleiro. ‘‘Nós já sabemos quem matou o sem-terra: foi o Guimarães, que também acabou morrendo. Só nos resta saber quem matou o pistoleiro’’, explicou ele.
O inquérito foi aberto pelo delegado Leal logo depois das mortes; Martins foi procurado pela polícia mas conseguiu fugir. Até agora, o delegado já ouviu os depoimentos de sem-terra que testemunharam as mortes e de policiais militares que estiveram no assentamento.
A briga entre Martins e os sem-terra é antiga: começou há mais de um ano quando o Incra desapropriou a fazenda e autorizou o assentamento. Martins, que havia recebido 150 alqueires do antigo dono da Pedra Branca, perdeu o direito às terras e desde então passou a incomodar os agricultores. O assentamento tem hoje 63 famílias de sem-terra.
Segundo os líderes do MST na região, Martins formou uma gangue com 30 pistoleiros, que há um ano ameaçava as famílias. No dia 28 de novembro, o tiroteio entre pistoleiros e sem-terra começou de manhã e só terminou no final do dia, com a chegada da PM. Segundo a polícia, jagunços e sem-terra travaram uma verdadeira guerra de emboscadas, facilitada pela grande extensão e pelos altos e baixos da área.

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