O maior conflito urbano em todos os tempos no Oeste do Estado, que envolveu um bairro da região central de Cascavel, está chegando ao fim após um acordo que deve ser concretizado ainda esta semana. As 295 famílias sem-teto que há 18 meses ocuparam terrenos baldios no Jardim Gramado serão transferidas em setembro para uma área adquirida pela empresa proprietária dos terrenos, a Imobiliária Transcontinental, de São Paulo, que era ligada ao extinto Banco Sulbrasileiro.
Uma comissão montada em julho pela Câmara Municipal para intermediar a solução do impasse foi desfeita sem que conseguisse acordo. No entanto, depois de uma reunião encerrada no início da noite de anteontem na prefeitura, diretores da imobiliária anunciaram a aquisição de uma área na zona leste da cidade, ainda caracterizada como chácara, que será doada ao município. A prefeitura abrirá ruas, enquanto a Copel e a Sanepar instalarão redes de água e luz para a instalação das famílias.
A ordem de reintegração de posse da área, que poderia ser cumprida a qualquer momento pela Polícia Militar, corria o risco de resultar em grande violência já que as famílias anunciaram que resistiriam assim como havia ocorrido em uma tentativa anterior. O preço de mercado dos terrenos do Jardim Gramado é de R$ 15 mil aproximadamente. Quando foram ocupados, estavam tomados pelo mato e os sem-teto alegaram que eram voltados à especulação imobiliária e que a empresa não estava pagando o IPTU devido ao município.
No ano passado, a Polícia Militar chegou a tentar a retirada das famílias de alguns terrenos, cumprindo a ordem de reintegração obtida pela Transcontinental, mas usou poucos policiais, que foram enfrentados por homens, mulheres e crianças, e tiveram que recuar. Os sem-teto também tiveram que enfrentar forte resistência de antigos moradores do bairro, que alegavam desvalorização de suas propriedades com a vizinhança de barracos erguidos pelas famílias.
A área será escriturada para a prefeitura ainda esta semana. As famílias vão ser assentadas sob regime de comodato, recebendo escrituras individuais após 10 anos. ‘‘Nós mesmos exigimos isso para evitar que algumas famílias vendam os lotes, caracterizando especulação’’, disse ontem Sílvio Gonçalves, 31 anos, líder dos sem-teto. Segundo ele, a solução do impasse ‘‘é resultado da luta dos sem-teto, que enfrentaram todo tipo de resistência ao direito de terem uma moradia’’. O prefeito Salazar Barreiros (PPB) disse que o acordo firmado ‘‘resolve um dos mais graves problemas sociais já enfrentados na cidade’’.

mockup