Lúcio Horta
De Londrina
Um acordo fechado por volta do meio-dia de ontem entre detentos da Prisão Provisória de Londrina e o juiz-corregedor Roberto do Valle acabou com uma rebelião na unidade. O motim, liderado por José Aparecido Urbano, 27 anos, conhecido por ‘‘Japonês’’, começou na sexta-feira, por volta das 18h30, durante a distribuição do jantar.
Cerca de dez presos, armados com estoques, renderam dois agentes penitenciários - Everaldo Barbosa e Adaílton Oliveira da Silva -, três presos que trabalham na cozinha e tomaram as chaves da carceragem. Depois, passaram a exigir no local a presença do juiz-corregedor Roberto do Vale, que só chegou à Prisão ontem às 9h40.
Com um telefone celular cedido por um dos funcionários da Prisão, Japonês disse à Folha, antes de fechar o acordo com Roberto do Vale, que eram dois os principais problemas que motivaram a rebelião: a lentidão da Justiça para o julgamento dos processos e também a falta de atenção com a saúde dos presos. Além disso, familiares de presos estariam sendo ‘‘humilhados’’ durante as revistas feitas.
‘‘A gente só quer os nossos direitos. Se errou, tem que pagar. Mas tem gente aqui com um ano, mais do que isso, que já deveria estar fora’’, afirmou. ‘‘Tem também colega portador do HIV que não toma uma substância médica. Outro com problemas na perna e não resolve. É um descuido muito grande.’’
Para mostrar que estavam dispostos a não ceder sem um resultado satisfatório na negociação, alguns presos chegaram a mostrar reféns ameaçados com estoque no pescoço. ‘‘A gente age de boa-fé. Mas se não fecharmos acordo pode haver violência aqui’’, afirmou Japonês.
Depois de uma rápida negociação com o juiz-corregedor, no entanto, os presos aceitaram liberar os reféns. Ficou decidido que quatro presos seriam transferidos para a Colônia Penal Agrícola de Curitiba e outros oito para a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Roberto do Vale também se comprometeu em analisar o processo de outros 12 presos que poderiam ser transferidos. Além disso, irá encaminhar a reclamação da lentidão da justiça para os juízes criminais.
‘‘Mas enquanto não se criar mais varas criminais em Londrina é impossível resolver a situação’’, ponderou o juiz. Ele observou que em cada uma das quatro varas da cidade existem até 120 casos de réu preso e, por isso, é raro o cumprimento do prazo definido pelo Código Penal para conclusão dos processos - três meses, em média.
Para o transporte dos presos para Curitiba, que ocorreria na tarde de ontem, seria utilizado um microônibus da Polícia Militar. Na mesma viagem, além dos quatro detentos da Prisão Provisória, também iriam outros cinco presos de distritos policiais da cidade e quatro da PEL. Todos seriam encaminhados para a Colônia Penal.
‘‘Satisfeito a gente não está, mas vamos acreditar na palavra do juiz. O que nós tratamos nós vamos cumprir. Espero que ele também cumpra a parte dele. Vamos ver como vai ficar na semana que vem’’, disse Japonês, do pátio de sol, pouco depois do acordo ser fechado. ‘‘Mas, se não resolver, a gente faz outro motim.’’Armados com estoques, presos se rebelaram contra a lentidão nos processos e falta de atendimento à saúde na unidade
Dorico da SilvaReivindicaçõesO líder da rebelião, José Aparecido Urbano, conhecido como ‘Japonês’, relata aos colegas o resultado da negociação com o juiz-corregedor

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