Mestre-de-obras aposentado, João Pereira Leite, 64 anos, descobriu que tem glaucoma há três anos, quando foi reprovado no exame de renovação da carteira de habilitação. Na manhã de ontem, ele e outros cinco pacientes ligados à Associação pelos Direitos da Visão passaram por uma triagem no Hospital de Olhos de Londrina (Hoftalon) para receber colírios gratuitamente.
''Gasto em média R$ 110 por mês com colírio e comprimido. O filho fica sem pão de manhã cedo para eu não ficar sem remédio. Sem o colírio fico cego'', contou Leite, que tem uma filha, um irmão e uma sobrinha com glaucoma. ''Minha avó e meu pai morreram cegos'', recordou.
Segundo o diretor do hospital, Nobuaqui Hasegawa, em acordo feito com o
governo do Estado na semana passada, o Hoftalon se prontificou a fornecer os medicamentos aos pacientes cadastrados na associação. ''Como a Saúde precisa fazer licitação para comprar os remédios e o processo licitatório é demorado, o hospital, que tem facilidade em comprar os colírios, irá distribuir a medicação temporariamente, até que o governo federal credencie um centro de referência em glaucoma em Londrina'', justificou o médico, reforçando que a triagem deve terminar dentro de uma semana e os medicamentos devem começar a ser distribuídos em até 15 dias.
O acordo foi feito depois que mais de cem pessoas portadoras de glaucoma participaram de um protesto no último dia 16 de julho, na Concha Acústica (Centro). Munidos de faixas e velas, os pacientes caminharam até a 17 Regional de Saúde para reivindicar os colírios necessários para controlar a doença e evitar a perda gradativa da visão, que é irreversível.
Conforme Luís Martins, um dos diretores da Associação, pelo menos 400 doentes devem ser beneficiados pelo acordo. A triagem acontece desde o início da semana e envolve grupos diários de dez a 15 pessoas, que são convocadas a comparecer ao Hoftalon para realização de novos exames e uma consulta com um oftalmologista. Além do receituário médico, os pacientes, já cadastrados na Associação, devem apresentar os documentos pessoais, o cartão do Sistema Único de Saúde (SUS) e um comprovante de residência.
O perfil dos associados é de aposentados que vivem com menos de um salário mínimo e têm dificuldade para bancar a compra do medicamento. ''Muitos usam uma combinação de colírios, o que encarece ainda mais o tratamento'', informou Martins.
Vindo de Andirá (36 km ao oeste de Jacarezinho), o motorista Natal de Oliveira, 73 anos, não pôde realizar o exame de glaucoma na manhã de ontem porque um dos equipamentos do Hoftalon estava quebrado. Ele teve a consulta remarcada, mas está confiante de que receberá o colírio que alivia os sintomas da doença, com a qual convive há dois anos. ''Já perdi a vista esquerda e hoje uso uns cinco colírios para controlar a vista direita.''
Comerciante aposentado, Francisco Oliver, 73, foi até o Hoftalon na manhã de ontem em busca do colírio. Ele também perdeu a vista esquerda e luta contra o glaucoma que atingiu sua vista direita usando um colírio que custa R$ 82 e dura apenas 15 dias. ''Tenho medo de ficar cego antes de morrer, mas é humilhante demais ter que pedir remédio. Hoje a gente tira da comida para não interromper o tratamento'', confessou.

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