ACOLHIMENTO - 'Me sinto uma paciente vip'
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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

A mulher de 38 anos que mora em uma praça de Londrina com o companheiro e mais algumas pessoas descobriu há algum tempo que tem tuberculose e, desde então, recebe atendimento do CnaR (Consultório na Rua), vinculado à secretaria municipal de Saúde. Além do medicamento que deve ser tomado diariamente, ela faz exames e recebe orientações das profissionais da equipe, que passam pelo local de uma a duas vezes na semana. Funcionários da UBS (Unidade Básica de Saúde) da região apoiam o trabalho levando o medicamento nos dias em que o CnaR não atua.
"Me sinto uma paciente vip", conta ela, que não se sente à vontade para procurar os serviços tradicionais e gosta da acolhida do pessoal do consultório. "Meu estilo de vida é respeitado. Sinto que o pessoal tem interesse em cuidar da gente", avisa ela, que teve depressão após o assassinato do primeiro marido e acabou nas ruas por ter "se entregado ao mundo louco". "Meus quatro filhos moram com minha mãe. Quero reformar a nossa casa", sonha.
A mulher relata ter tido uma vida "de salto alto e manicure feita toda semana", mas na rua vende chiclete e sobrevive de doações. "Nem todo mundo que está na rua precisa roubar", garante ela, que sente saudades dos filhos mas não consegue voltar à vida de antes.
Com um machucado no pé que foi higienizado e recebeu curativo da equipe do Consultório, o homem de 47 anos conta que tem sido acompanhado pelo serviço e sente que está bem cuidado. O mesmo diz outro morador da praça, de 31 anos, que aprendeu com a equipe do CnaR sobre os riscos de compartilhar cachimbos de crack e hoje toma cuidado para não se expor a riscos desnecessários. "A conversa do pessoal desperta nossa consciência", afirma ele, que também elogia as profissionais pela humanidade no atendimento. "Com elas, sentimos que não estamos esquecidos", emociona-se.
AURICULOTERAPIA
A dentista Ângela Harumi Rondem aplica auriculoterapia nas pessoas que a procuram no Centro POP - que concentra o atendimento à população de rua na região central. Conta que tem ouvido muitos relatos de redução de ansiedade, compulsão e vontade de usar drogas. "Os resultados são aparentes", conta ela, que também presta atendimento odontológico e encaminha quem precisa para tratamento. "Nas reuniões no Centro POP também fazemos orientação em saúde bucal e encaminhamos para tratamento nas universidades", relata.
No Centro POP, a reportagem acompanhou uma roda de conversa seguida de auriculoterapia e ouviu a população atendida sobre a qualidade dos serviços. Além do atendimento em saúde, eles puderam tomar banho e receberam um lanche. No grupo, um angolano de 32 anos que vive nas ruas de Londrina há pouco mais de um ano relatou que já passou por várias clínicas de reabilitação mas nunca conseguiu superar o vício em drogas. "Com o pessoal do Consultório de Rua recebo atendimento da assistência social e cuidados com a saúde. O trabalho delas é excelente, pena que o sistema é burocrático", ponderou o homem, que tem família em São Paulo e Portugal mas perdeu vínculos com todos. "Sou um escravo das drogas", lamenta.
Outro participante da atividade relatou que tem recebido tratamento para hérnia e aprova a auriculoterapia que, segundo ele, reduz a compulsão pelo crack. "Essa noite não usei droga. Tudo que eu quis foi dormir", comemora. Há oito anos nas ruas, ele conseguiu tirar documentos com apoio do Centro POP e já teve oportunidade de ser encaminhado para clínicas de reabilitação, mas não aceitou. "Queria parar com as drogas, mas na rua é bem difícil."
Aos 49 anos, um homem que vivia na rua há 20 anos conta que conseguiu superar o alcoolismo e a vida na rua com ajuda do Consultório. "Tenho ataques epilépticos e as moças praticamente me perseguiam pelas ruas para me atender", brinca ele, que há um ano foi encaminhado a um abrigo. "Participei de uma celebração religiosa e tive forças para deixar a cachaça", revela. Apesar de viver em uma casa cujo aluguel é dividido com outra pessoa, ele continua frequentando os serviços destinados aos moradores de rua. "Preciso me sentir forte e eles me ajudam", conta.
Um rapaz de 34 está apenas começando o processo de se inserir na sociedade. No dia da entrevista, ele estava sem usar drogas há sete dias e contava com a ajuda de uma igreja para resistir. Sobre o consultório, ele garante que as terapias ajudam a acalmá-lo. "As sementinhas na orelha são muito boas, quando não uso, sinto até saudades."


