No Centro POP, grupo participou de uma roda de conversa seguida de auriculoterapia
No Centro POP, grupo participou de uma roda de conversa seguida de auriculoterapia | Foto: Saulo Ohara



A mulher de 38 anos que mora em uma praça de Londrina com o companheiro e mais algumas pessoas descobriu há algum tempo que tem tuberculose e, desde então, recebe atendimento do CnaR (Consultório na Rua), vinculado à secretaria municipal de Saúde. Além do medicamento que deve ser tomado diariamente, ela faz exames e recebe orientações das profissionais da equipe, que passam pelo local de uma a duas vezes na semana. Funcionários da UBS (Unidade Básica de Saúde) da região apoiam o trabalho levando o medicamento nos dias em que o CnaR não atua.

"Me sinto uma paciente vip", conta ela, que não se sente à vontade para procurar os serviços tradicionais e gosta da acolhida do pessoal do consultório. "Meu estilo de vida é respeitado. Sinto que o pessoal tem interesse em cuidar da gente", avisa ela, que teve depressão após o assassinato do primeiro marido e acabou nas ruas por ter "se entregado ao mundo louco". "Meus quatro filhos moram com minha mãe. Quero reformar a nossa casa", sonha.

A mulher relata ter tido uma vida "de salto alto e manicure feita toda semana", mas na rua vende chiclete e sobrevive de doações. "Nem todo mundo que está na rua precisa roubar", garante ela, que sente saudades dos filhos mas não consegue voltar à vida de antes.

Com um machucado no pé que foi higienizado e recebeu curativo da equipe do Consultório, o homem de 47 anos conta que tem sido acompanhado pelo serviço e sente que está bem cuidado. O mesmo diz outro morador da praça, de 31 anos, que aprendeu com a equipe do CnaR sobre os riscos de compartilhar cachimbos de crack e hoje toma cuidado para não se expor a riscos desnecessários. "A conversa do pessoal desperta nossa consciência", afirma ele, que também elogia as profissionais pela humanidade no atendimento. "Com elas, sentimos que não estamos esquecidos", emociona-se.

AURICULOTERAPIA
A dentista Ângela Harumi Rondem aplica auriculoterapia nas pessoas que a procuram no Centro POP - que concentra o atendimento à população de rua na região central. Conta que tem ouvido muitos relatos de redução de ansiedade, compulsão e vontade de usar drogas. "Os resultados são aparentes", conta ela, que também presta atendimento odontológico e encaminha quem precisa para tratamento. "Nas reuniões no Centro POP também fazemos orientação em saúde bucal e encaminhamos para tratamento nas universidades", relata.

No Centro POP, a reportagem acompanhou uma roda de conversa seguida de auriculoterapia e ouviu a população atendida sobre a qualidade dos serviços. Além do atendimento em saúde, eles puderam tomar banho e receberam um lanche. No grupo, um angolano de 32 anos – que vive nas ruas de Londrina há pouco mais de um ano – relatou que já passou por várias clínicas de reabilitação mas nunca conseguiu superar o vício em drogas. "Com o pessoal do Consultório de Rua recebo atendimento da assistência social e cuidados com a saúde. O trabalho delas é excelente, pena que o sistema é burocrático", ponderou o homem, que tem família em São Paulo e Portugal mas perdeu vínculos com todos. "Sou um escravo das drogas", lamenta.

Outro participante da atividade relatou que tem recebido tratamento para hérnia e aprova a auriculoterapia que, segundo ele, reduz a compulsão pelo crack. "Essa noite não usei droga. Tudo que eu quis foi dormir", comemora. Há oito anos nas ruas, ele conseguiu tirar documentos com apoio do Centro POP e já teve oportunidade de ser encaminhado para clínicas de reabilitação, mas não aceitou. "Queria parar com as drogas, mas na rua é bem difícil."

Aos 49 anos, um homem que vivia na rua há 20 anos conta que conseguiu superar o alcoolismo e a vida na rua com ajuda do Consultório. "Tenho ataques epilépticos e as moças praticamente me perseguiam pelas ruas para me atender", brinca ele, que há um ano foi encaminhado a um abrigo. "Participei de uma celebração religiosa e tive forças para deixar a cachaça", revela. Apesar de viver em uma casa cujo aluguel é dividido com outra pessoa, ele continua frequentando os serviços destinados aos moradores de rua. "Preciso me sentir forte e eles me ajudam", conta.

Um rapaz de 34 está apenas começando o processo de se inserir na sociedade. No dia da entrevista, ele estava sem usar drogas há sete dias e contava com a ajuda de uma igreja para resistir. Sobre o consultório, ele garante que as terapias ajudam a acalmá-lo. "As sementinhas na orelha são muito boas, quando não uso, sinto até saudades."

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