ACOLHIMENTO - Consultório atende população de rua
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Uma equipe de seis mulheres de Londrina dedica-se a levar prevenção, tratamentos de saúde e acolhimento a uma parcela da população que permanece invisível à sociedade. Elas integram o serviço CnaR (Consultório na Rua), vinculado à secretaria municipal de Saúde, que busca ofertar à população de rua o mesmo atendimento em atenção básica ofertado nas UBS (Unidades Básicas de Saúde).
Ao contrário da maioria das pessoas que chega a mudar de caminho para evitar qualquer convivência com quem vive na rua , essas profissionais procuram ativamente por essa população. O trabalho delas consiste em ir até os locais que concentram homens e mulheres nesta condição e oferecer a eles acolhimento, avaliação em saúde e prevenção.
A lista de procedimentos inclui, entre outas ações, realização de curativos, avaliação e encaminhamento odontológico, coleta de exames laboratoriais e papanicolau, agendamento e acompanhamento de consultas, acompanhamento de gestantes pré e pós parto, administração de medicamentos injetáveis e TDO (Tratamento Diretamente Observado) e administração de medicamento para tratamento de Sífilis e ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis).
Além disso, a equipe trabalha com redução de danos entre usuários de álcool e outras drogas e também aplica o plano "Crack é possível vencer" do governo federal. Terapia comunitária, rodas de conversa e orientações sobre cuidados com higiene bucal e corporal são outras frentes de atuação do Consultório, assim como procedimentos inclusos dentro do programa de PICs (Práticas Integrativas e Complementares).
A coordenadora do CnaR, Jucelei Pascoal Boaretto, explica que o programa atende nas cinco regiões da cidade, com presença semanal nas praças Dom Pedro (zona oeste) e Tomi Nakagawa (centro) e no Marco Zero (leste). Há atividades em outras regiões e, além disso, atuam no Centro POP que concentra o atendimento a essa população na região central -, no Caps 3 e na chamada República, uma residência que abriga pessoas que estão deixando as ruas.
O serviço tem 410 pessoas cadastradas, mas a coordenadora lembra que essa população é bastante flutuante. Apenas no segundo quadrimestre de 2017 foram realizados 1.047 atendimentos. A equipe é formada também pela educadora social Cláudia Marcela Fazenda, pela auxiliar de enfermagem Valdete Aparecida de Souza, pela dentista Angela Harumi Rondem, pela enfermeira Sônia Yurika Imai e pela psicóloga Tamires Toneti de Brito Hara.
Comunidade com regras próprias
A reportagem da FOLHA acompanhou o trabalho da equipe do Consultório na Rua na praça Dom Pedro, zona oeste de Londrina. A educadora social Cláudia Marcela Fazenda e a enfermeira Sônia Yurika Imai abordaram e foram bem recebidas por um grupo de aproximadamente dez pessoas. O foco principal do atendimento foi uma mulher diagnosticada com tuberculose que precisa tomar remédios diariamente. Além de aferir pressão e orientar sobre o tratamento, as profissionais realizaram um teste rápido de gravidez - a pedido da paciente que deu negativo. Outro caso que preocupou a equipe foi de um homem portador de diabetes que não está em tratamento.
Elas relataram que estão acompanhando uma gestante em situação de rua que tem sido orientada a fazer exames de pré-natal. "É complicado porque elas em geral têm pouco vínculo com a gestação, que quase sempre é indesejada. A gente leva para as consultas, exames, mas às vezes há resistência", disse Fazenda.
Para conseguir acessar os pacientes e oferecer prevenção em saúde e tratamentos, elas investem no desenvolvimento de laços de confiança com essas pessoas que, nem sempre, são receptivas ao serviço. "Eles formam uma comunidade com regras próprias de sobrevivência. Temos que entender essa dinâmica para sermos eficientes. Se não tivermos respeito, não trabalhamos", considera.
No serviço desde a fundação, em 2012, Imai relata que sempre chegam pessoas novas às ruas de Londrina, mas também há gente que está sendo acompanhada desde o início do serviço. "Conseguimos reintegrar 15 pessoas à convivência familiar. Parece pouco, mas eu vibro com esse resultado, porque o processo é muito difícil", diz.
Quem chega às ruas, segundo a enfermeira, enfrentou uma história de muitas perdas: emprego, parentes, amigos ou mesmo abandono da família. "Uso de álcool e outras drogas faz parte da rotina deles. É uma fuga para suportar as perdas", avalia.
Tirá-los das ruas não é o objetivo do serviço, que foca em orientações e cuidados com a saúde. No processo, porém, o contato com tratamentos terapêuticos para reduzir o uso acaba sensibilizando pacientes. "O maior desafio é conseguir a adesão aos tratamentos. O desafio é dos pacientes, mas estamos sempre juntos para ajudar a organizar a vida.


