Imagem ilustrativa da imagem ACOLHIMENTO - À beira do desamparo



Há algumas décadas, pessoas com deficiência intelectual dificilmente chegavam à velhice. A morte precoce, porém, deixou de ser uma realidade para esse grupo a partir do avanço da medicina e hoje não é raro encontrar indivíduos na faixa dos 60 anos de idade. Mas se a ciência propiciou maior longevidade às pessoas com deficiência, também abriu brechas para o surgimento de outros problemas, sendo a ausência de um cuidador um dos principais deles.
Muitos deficientes têm um nível de comprometimento intelectual que os torna inteiramente dependentes da figura do cuidador, responsável pela alimentação, saúde, higiene e socialização. Sem essa ajuda, o deficiente fica vulnerável a uma sociedade discriminatória e despreparada para atendê-lo na velhice. Embora haja um aumento nas taxas de institucionalização de idosos deficientes no País, ainda são poucas as ofertas de serviços de acolhimento destinados a esse grupo.
Nesta sexta-feira (25), o Ministério Público de Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina) promove uma audiência pública para ouvir representantes do poder público e a comunidade, em especial os pais ou responsáveis pelas pessoas com deficiência, e discutir a necessidade de implantação no município de uma residência inclusiva. Trata-se de uma modalidade de serviço de acolhimento do Sistema Único de Assistência Social (Suas) destinada a jovens e adultos com deficiência em situação de dependência. Cada residência abriga até dez pessoas com a finalidade de promover o desenvolvimento de capacidades adaptativas à vida diária, autonomia e participação social.
O Estatuto da Pessoa com Deficiência estabelece que ela tem o direito de conviver com sua família natural, mas quando isso não é possível, o Estado deve viabilizar alternativas. "O acolhimento em residências inclusivas deve ocorrer quando nenhuma outra medida se fez possível, sendo, portanto, exceção, jamais a regra", ressaltou a promotora de Justiça de Ibiporã, Amarílis Picarelli Cordioli.
Em julho passado, a promotoria instaurou procedimento administrativo para levantar o número de pessoas com deficiência no município, especialmente aquelas em situação de dependência, assim como identificar os responsáveis legais, idade dos cuidadores e quem deverá substituí-los em caso de ausência. O procedimento ainda está em andamento.

FILA DE ESPERA
Somente na Apae de Ibiporã há 12 adultos entre 35 e 40 anos de idade à espera de acolhimento institucional. Entre eles, quatro foram abrigados provisoriamente em um asilo de idosos, por determinação do MP. Outras 40 pessoas têm como cuidadores idosos que, estima-se, dentro de poucos anos não terão mais condições físicas de manter os cuidados. "As residências inclusivas são um desejo nosso e de toda a sociedade que trabalha com pessoas com deficiência porque a gente está vendo que os pais, os cuidadores e os irmãos estão começando a ficar envelhecidos", disse o presidente da Apae em Ibiporã e presidente do Conselho da Pessoa com Deficiência do município, Gilson Mensato.
"A gente percebe que são raríssimos os casos de parentes que assumem os cuidados", acrescentou o diretor Pedagógico da entidade, Paulo Silvério Pereira, que também preside o Conselho Municipal de Assistência Social de Ibiporã e é conselheiro estadual de Assistência Social.
Sem local adequado para acomodar os deficientes que perderam seus cuidadores, a Apae solicitou uma vaga em unidades de acolhimento de outros municípios e há oito meses espera uma resposta mesmo sabendo que transferir alguém nessas condições para outra cidade não é a melhor alternativa. "A gente sabe que se tirar um aluno nosso que viveu a vida inteira ao lado da família, conhecendo o professor, conhecendo seus amigos, e transferi-lo para Curitiba, Irati ou Cascavel, ele não vai muito longe. É sentenciar essa pessoa à morte. Tem que ser uma inclusão responsável. Por isso a nossa preocupação e do Ministério Público em discutir esse assunto o mais rápido possível e se criar formas de instalação dessas casas", afirmou Mensato.
"Quando o portador de deficiência fica idoso, a gente faz o atendimento ambulatorial, mas não tem condição de trazê-lo para a escola", disse a assistente social da Apae, Sueli Midori Kazahaya. A Apae em Ibiporã tem 250 alunos matriculados atualmente e outras 50 pessoas com deficiência frequentam a entidade apenas para receber atendimento clínico.
"Essas pessoas são invisíveis. Elas não fazem passeata, elas não fazem manifestação. Se não fazemos esse papel de tomarmos à frente e provocar essa discussão, isso não acontece", reforçou Pereira.

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