Rolândia - A fotografia como terapia. Essa foi a proposta da oficina "O cotidiano e Saúde Mental", ministrada pelo fotógrafo Walter Ney, para os pacientes do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Rolândia (Região Metropolitana de Londrina). Os três centros da cidade promoveram durante a semana uma série de atividades para marcar o Dia da Luta Antimanicomial, lembrando no dia 18 de maio. Quinze pacientes fizeram a oficina de fotografia durante três dias e ontem compartilharam com os colegas o resultado.
Walter Ney passou noções de luz, contrastes e conceitos de bonito e feio e o resultado o surpreendeu. "Esse olhar puro das pessoas é muito rico. Quase sempre tem uma história por trás das fotos", disse.
Para ele, a possibilidade dos pacientes se "apropriarem" da fotografia é muito importante para a autoafirmação. "Sair do grupo e do Caps e estar aqui é uma experiência muito rica. Às vezes, eles nunca tiveram a experiência de ser autores da história, de dar vida à imagem", comentou. O fotógrafo pretende fazer, futuramente, uma exposição com as imagens produzidas pelos participantes da oficina.
Participar das atividades ajuda na recuperação de Bruno Aparecido Pereira, de 26 anos. Ele é paciente da rede de Saúde Mental desde 2012. Com depressão profunda, o rapaz contou que durante a oficina de fotografia conseguiu se desligar dos problemas e "esvaziar a cabeça". Ele contou que sempre preferiu se isolar das pessoas, mas após a morte da irmã e de um primo, num período de pouco mais de um ano, os sentimentos de raiva e necessidade de isolamento pioraram. Ele já foi internado duas vezes para tratamento e, agora com acompanhamento do Caps tem conseguido sair de casa e conviver com as pessoas.
O apoio da mulher, Beatriz Gomes de Brito, tem sido fundamental neste processo de recuperação. "Se eu não ajudo, ele não vai no grupo. Sou o apoio dele", disse.
Esse apoio da família é importante. "Às vezes, a família não tem o entendimento sobre a doença e nem de quanto esse paciente pode melhorar com o suporte familiar", comentou Fernanda Giseli Zilli Tamari, coordenadora do Caps para Adultos.
Os profissionais do Caps querem chamar a atenção para a luta antimanicomial. Além das atividades com os pacientes, foram realizadas capacitações com 300 profissionais da rede de saúde mental de seis municípios da microrregião de Rolândia. "Ainda há muito preconceito e o estigma que este paciente é louco, que vai ser grosseiro. As pessoas têm medo", afirmou a coordenadora.
A intenção do Caps é desmistificar esse estigma e aproximá-los da população em geral. "Eles têm o direito de conviver em sociedade. O nosso trabalho não é só estabilizar esse paciente, mas também inseri-lo socialmente", disse Fernanda.
Paciente do Caps há três meses, Rafael da Silva, de 27 anos, luta contra a dependência de álcool e droga, e aguarda ansioso para voltar ao mercado de trabalho. Ele já passou por 17 internações, viveu nas ruas em Curitiba, quase perdeu o contato com a família. Mas um dia decidiu sair das ruas e voltar para casa. "Procurei tratamento no Caps e agora quero construir alguma coisa, quero vencer na vida", disse.
Ele participou da oficina de fotografia e de palhaço. "Aprendi a me maquiar como um palhaço. Fazer essas coisas dá mais vontade de ficar bem para fazer ainda mais. Quero participar de todas as oficinas que eles dão. Aprendi hoje, que uma foto pode trazer uma grande história."
As três unidade do Caps de Rolândia atendem em torno de 200 pacientes.

mockup