A maior parte dos atropelamentos envolvendo crianças acontece próximo à residência, com meninos de 7 anos em média, no fim de tarde dos dias de semana. A descoberta foi feita pelo cirurgião pediátrico Marcelo Ribas, em sua tese de mestrado para a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Outras pesquisas mostram que a principal causa de morte entre crianças de 1 a 14 anos é o acidente de trânsito, que representa 40% dos casos.
Vinte e sete crianças já morreram no trânsito este ano somente no Paraná. No ano passado, foram 57 mortes e 1.481 feridos. Os números são referentes a pessoas de 1 a 14 anos vítimas de atropelamento ou envolvidas em acidentes de trânsito. Pesquisas realizadas em Curitiba indicam que, para cada morte, quatro ou cinco crianças ficam com alguma seqüela.
Os dados mostram uma dura realidade que tem se mantido nos últimos anos. Para conscientizar os adultos, especialmente pais e responsáveis, sobre a fragilidade das maiores vítimas da imprudência dos motoristas, o Departamento de Trânsito (Detran) do Paraná inicia hoje a Semana Nacional de Trânsito. Com o tema "A Criança no Trânsito", ações, que incluem blitze nas escolas, palestras e um espaço em um shopping center para atendimento aos motoristas, vão até o dia 25 deste mês.
Ribas apurou também as causas de seu levantamento. "Os meninos são mais soltos para andar nas ruas, mas ainda não têm maturidade, por isso são as maiores vítimas. O horário (final de tarde) reflete o retorno da escola e a maioria dos casos acontece na periferia, onde os pequenos têm menos supervisão de adultos", explica.
Ribas conta que, quando realizou o estudo, Curitiba registrava uma média de 30 atropelamentos com mortes de crianças ao ano. Mas o número de vítimas com lesões permanentes pode chegar a 150. "E, nas crianças que ficam com seqüelas do acidente, os danos atingem toda família. Muitas vezes um dos pais precisa deixar o emprego para cuidar do filho, ou seja, o custo social é muito alto", conclui. No Brasil, 1,2 mil crianças morrem atropeladas ao ano e 17 mil são hospitalizadas.

Motoristas não colaboram
Angelina Coutinho leva as duas filhas e uma sobrinha à escola localizada em uma rua movimentada da Capital e depois busca as meninas, no fim da tarde. Segundo ela, a atenção com as crianças -de 7 e 8 anos- tem que ser constante. "Não tem jeito, se a gente se distrai um pouco, elas saem correndo, se metem no meio dos carros. Tem que segurar mesmo. E os motoristas não colaboram. Mesmo em frente à escola eles não param e muitas vezes nem diminuem a velocidade", conta.
De acordo com a coordenadora regional da organização não-governamental (ONG) Criança Segura, Alessandra Françoia, crianças até 10 anos devem estar sempre acompanhadas por adultos nas ruas. "Até essa idade, ela ainda não tem as habilidades necessárias para a complexidade do trânsito. Ela não tem visão periférica, não consegue discernir o som de uma buzina, por exemplo, e acredita que, se ela vê o carro, o carro também pode vê-la. Em resumo, não consegue julgar o trânsito", explica. "O ideal é que o adulto vá orientando sempre e observe se o pequeno já desenvolveu as habilidades necessárias para andar sozinho".
Para a coordenadora da Coordenadoria de Educação para o Trânsito do Detran/PR, Maria Helena Gusso Mattos, o foco da conscientização nos pequenos é fundamental porque eles são os mais frágeis usuários das ruas, dependendo totalmente da proteção de um adulto. "Seja dentro do carro ou como pedestre, eles não têm como avaliar os riscos da situação. Dentro do carro, os pais deixam os pequenos soltos no banco de trás acreditando numa falsa sensação de proteção. Mas, numa colisão, ela é facilmente arremessada para fora do veículo".
Angelina conta que a filha de 7 anos sempre vai no banco de trás com cinto de segurança, mas confessa que não tem uma cadeirinha específica para o transporte. Um pesquisa realizada no ano passado em Curitiba mostra que 83% das crianças são transportadas de forma errada e que 8% das com menos de 10 anos são conduzidas no banco na frente. Os dados são do Datasus e foram divulgados pela ONG Criança Segura.
Outra preocupação dos especialistas é com relação ao uso da bicicleta. Para Alessandra, crianças menores só podem andar de bicicleta em locais sem fluxo de veículos e com o capacete. "A criança precisa se desenvolver e brincar, mas sempre com segurança".

Soluções
Marcelo Ribas acredita que somente com ajustes na legislação, aliados a uma melhor engenharia de trânsito e a conscientização e educação dos pais e dos pequenos é que esse quadro pode melhorar. Alessandra também aposta nos equipamentos especiais, como as cadeirinhas específicas para determinadas faixas etárias. "Temos uma legislação que já prevê essa obrigatoriedade, mas nem mesmo os ônibus e vans de transporte escolar têm esse cuidado".

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