Acidente é uma questão de saúde pública
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 1998
Benê Bianchi 
Acidente de trânsito deve ser encarado, em Londrina, como um problema de saúde pública. A conclusão é da tese de doutorado da docente do departamento Materno-Infantil e Saúde Comunitária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Selma Maffei de Andrade.
Durante os seis primeiros meses de 96, a professora coletou dados, chegando a 3.643 vítimas de acidentes atendidas em prontos-socorros, internadas ou que morreram. Deste total, apenas 222 eram provenientes de outras cidades. O restante, se envolveu em acidentes ocorridos dentro do município de Londrina.
Entre todos os acidentados, as maiores vítimas são os ocupantes de motocicleta, totalizando 44,4% do total de atendimentos efetuados durante o primeiro semestre de 96. Essa é uma realidade que não mudou. A maioria das vítimas de acidentes continua sendo ocupante de moto, adianta Selma Maffei. Em segundo lugar, aparecem os ocupantes de bicicleta (20,9%); em terceiro, os ocupantes de carro (19,2%); e em quarto, os pedestres (11,6%).
Os estudos mostraram ainda que o grupo mais exposto a lesões é o da faixa etária entre 20 a 24 anos, do sexo masculino, principalmente quando são analisados os números de acidentados de moto. Outro dado, é de que para cada 100 vítimas, 11 são internadas e duas morrem em decorrência dos ferimentos. A proporção cresce quando o grupo de pedestre é analisado isoladamente: 12 em cada 100 são internados e dois em cada 100 morrem).
No grupo analisado, foi constatado que a maior parte das lesões sofridas são na cabeça, com 32,9%, e membros inferiores (30,2%). Entre as vítimas que ficaram internadas predominaram as fraturas e entre as que faleceram, o traumatismo craniano, informa Selma. Num estudo comparativo com as capitais do país, Londrina aparece em nono lugar no número de mortes. A média local é de 37,8 mortes em acidentes para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 18,9 mortes.
Ela ressalta que o objetivo do estudo não foi verificar a presença de sequelas entre os acidentados, o que demandaria um acompanhamento de cada vítima por um período mais longo. Mas constatamos alguns diagnósticos que, certamente, indicam sequela para o resto da vida, como tetraplegia, laceração com prolapso do olho, amputação de perna.
A docente levantou a frota de veículos na cidade e chegou a outros números preocupantes. Para cada mil motos registradas, houve 64 vítimas; e para cada 1000 automóveis, foram registradas 9,5 vítimas. Em outras palavras, para cada 16 motos registradas, uma vítima é produzida em seis meses. Por outro lado, são necessários 105 automóveis para gerar uma vítima, diz.
O horário em que predominou a ocorrência dos acidentes que envolveram as vítimas estudadas foi das 18 às 24 horas. Nos finais de semana, a predominância foi entre 20 e 21 horas e nos dias úteis, das 18 às 19 horas. Segundo Selma Maffei, a maior parte dos acidentes que resultaram em vítimas fatais ou com sequelas envolvem altas velocidades, sendo que os óbitos geralmente ocorrem em vias rápidas (avenidas e rodovias). Estes acidentes ocorrem com mais frequência entre 23 e 24 horas.
Do total de acidentes analisados ainda foi constatado que 96 condutores de moto e três motoristas eram menores de idade. Um grande número de motoristas, no entanto, é ignorado, ressalta a professora. O fato de não se chegar ao número correto tem uma causa que ela também considera grave: apenas 32,5% dos acidentes analisados têm Boletim de Ocorrência feito pela polícia.
Existe uma subestimação do número de acidentes quando se trabalha com fonte oficial, constata ela. Dos acidentes envolvendo ciclistas, apenas 8,1% foram registrados pela polícia, dos envolvendo pedestres, foram registrados 24,8%; envolvendo motociclistas, 30,4%; e ocupantes de carro, 71,6%.
Além de mostrar que os acidentes constituem-se em um grave problema de saúde pública, a tese da professora também evidenciou que os moradores da região norte e sul estão mais sujeitos aos acidentes, que os moradores da região central. Isso pode ocorrer em virtude da maior exposição dos moradores das regiões norte e sul a situações de tráfego, como deslocamentos maiores para o trabalho, cruzamento de rodovias de trânsito intenso, enumera.
Os estudos também apontam algumas alternativas. Muitos discursos culpam as vítimas pelos acidentes, o que não leva a nada. Ninguém nasce negligente no trânsito, o que ocorre é um comportamento socialmente determinado, observa. Ela defende o desenvolvimento de estratégias amplas, voltadas, principalmente, para alteração no meio ambiente (construção de ciclovias, sinalização eficiente, estratégias para reduzir velocidade) e ações que promovam alteração no comportamento da população.
Outra medida considerada importante pela docente é a instalação de um sistema de vigilância com informações completas sobre os acidentes e as vítimas, envolvendo dados fornecidos pelos hospitais e pela polícia. A disponibilidade destas informações podem auxiliar no acompanhamento de tendências (tipo de acidentes, locais, total de vítimas) e avaliação de intervenções, defende.


