Acessibilidade ainda é um desafio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Marcos Roman <br> Reportagem Local 
Apesar de depender de uma cadeira de rodas para se locomover, Ana Paula Luiza de Andrade é um exemplo de disposição, força de vontade e perseverança. A rotina dela começa às 6h30 e só termina às 23h30. Nesse período, a jovem de 27 anos ela cuida de sua casa no Jardim Vista Bela (Zona Norte de Londrina), frequenta sessões de fisioterapia na Região Central, aulas do Ensino Fundamental em um colégio da Zona Oeste e as atividades do programa Pró-Jovem no Centro da cidade. Detalhe: a cadeirante faz tudo isso sozinha e, para realizar a jornada, depende de 10 ônibus por dia. Ao contrário do que muitos imaginam, a jornada cansativa ela cumpre com um sorriso nos lábios, que só se perde quando se depara com obstáculos que poderiam ser facilmente transpostos pelo poder público e pela sociedade.
''Tive a sorte de conseguir uma casa adaptada pela Cohab. Porém, ao chegar no ponto de ônibus do bairro já começa a minha preocupação. Como não há guia rebaixada, sou obrigada a esperar na rua. Corro o risco de ser atropelada e acabo ficando exposta ao sol ou à chuva porque não tenho acesso à área coberto do ponto'', queixa-se Ana Paula.
A reportagem da FOLHA acompanhou o trajeto da jovem de ônibus de sua casa até a clínica onde faz fisioterapia, na Avenida Souza Naves. Nas três linhas que pegou, Ana Paula contou com a colaboração dos motoristas para subir nos coletivos pela plataforma destinada a cadeirantes. ''A maioria dos motoristas e cobradores entende a situação e colabora com a gente. Porém, ainda existem alguns que fazem caras e bocas quando vê um cadeirante no ponto, pois demanda tempo ele parar o coletivo, levantar, descer e subir a plataforma e nos acomodar com cinto de segurança no espaço reservado para deficientes dentro do ônibus'', avalia.
Desrespeito
Segundo ela, muitos usuários do transporte coletivo também não respeitam o espaço exclusivo para cadeirantes. ''Algumas pessoas olham a gente entrando e não liberam o espaço onde a cadeira fica encaixada com o cinto de segurança. E quando pedimos licença ainda fazem cara feia. Não temos culpa da nossa condição'', enfatiza Ana Paula.
Ela diz que o mesmo desrespeito é constatado com frequência no Terminal Urbano. ''O elevador exclusivo para que portadores de deficiência possam ir de um andar ao outro do terminal vive sendo usado por pessoas comuns. Por conta disso, a gente acaba perdendo o horário dos ônibus, pois demoramos mais tempo para nos locomover'', ressalta a cadeirante.
Boa vontade
Entretanto, segundo Ana Paula, esse problema acaba ficando pequeno diante de outros bem mais graves. ''Embora as guias no terminal sejam rebaixadas, a inclinação é muito alta e a gente não consegue passar de um corredor para outro sem a ajuda dos seguranças. Eles têm muito boa vontade, mas essa não é a função deles. Quando eles estão ocupados, a gente tem que esperar a ajuda de outras pessoas. Já perdi muitos horários de consulta médica por causa disso'', relata.
Apesar de não possuir carro, a jovem sofre diariamente com os buracos que fazem parte da maioria das vias de Londrina, incluindo as pistas do Terminal Urbano. ''Já caí da cadeira dentro do terminal causa dos buracos e tive que ficar um mês com o pescoço imobilizado'', conta Ana Paula.
Descaso
Ao deixar as calçadas de seus imóveis quebradas, com buracos e saliências, muita gente não imagina os transtornos que acaba causando a quem se locomove com cadeiras de rodas. ''O cadeirante corre o risco de sofrer um acidente em cada esquina, pois é raro encontrar calçadas em bom estado na cidade'', reclama Ana Paula.
A falta de respeito em relação às faixas de pedestres completa a lista das barreiras enfrentadas por Ana Paula para chegar aos seus destinos. ''Tem dias que chego a esperar quase 30 minutos para conseguir atravessar a Rua Souza Naves e chegar à clínica de fisioterapia que fica quase em frente ao ponto de ônibus. O trânsito é grande nessa região e ninguém para o carro para a gente passar'', reclama a cadeirante.


