A falta de instalações adequadas credencia a umidade a ser a principal inimiga do acervo histórico de Curitiba. Livros e documentos raros estão guardados em prédios sem qualquer sistema de proteção contra a poeira e o mofo. Faltam verbas para laboratórios de restauração e salas climatizadas. O trabalho de preservação é artesanal. Voluntários e os próprios funcionários das instituições onde as obras ficam se encarregam de retardar os estragos que o tempo provoca.
Na Biblioteca Pública do Paraná, cerca de 3 mil volumes que guardam as edições de todos os jornais do Estado, entre 1854 e 1964, passam por um processo de restauração. Por falta de espaço, eles estavam guardados no subsolo do prédio da biblioteca. O local não recebe os raios solares, a umidade é constante e os fungos atacaram as páginas dos periódicos. Os livros são alvos das mais diversas depredações. Cerca de 2 mil são rasurados mensalmente.
O telhado da Casa da Memória, no Largo da Ordem, é uma ‘‘peneira’’. Funcionários colocaram lonas plásticas sobre os arquivos para protegê-los de goteiras e da poeira que cai do telhado. Preciosidades como plantas arquitetônicas de 1913, desenhadas em tecidos de linho, são guardados no local. A Casa da Memória também abriga aproximadamente 220 mil negativos e fotografias sobre o desenvolvimento do Estado e da capital.
As imagens também não estão a salvo. Ficam numa pequena sala localizada nos fundos do prédio da Casa da Memória. O espaço é delimitado por divisórias de madeira e coberto por uma lona preta que evita o pó que cai do telhado. O detalhe é que a umidade relativa do ar no arquivo fotográfico é de 85%. O índice ideal seria de 50%. O acervo conta com imagens obtidas pelo processo da daguerreotipia, o primeiro meio de obtenção de imagens fotográficas, criado no final do século 19.
Funcionários da Casa da Memória confirmaram à Folha que as condições insalubres já contribuíram para o aparecimento de doenças como a rinite alérgica, bastante conhecida dos curitibanos. No Departamento Estadual de Arquivo Público, a direção lida com outro problema, além do espaço reduzido: a estrutura do prédio, na Avenida Cândido de Abreu, não tem condições de suportar um sistema de climatização.
Ali estão guardados documentos da época da criação da província do Paraná, em 1854, e livros-ata que contabilizam a negociação de escravos entre fazendeiros. Sem meios tecnológicos para barrar o avanço dos fungos, resta apenas a chance de retardar o processo de deterioração dos documentos com aspiradores de pó e armazenamento em papéis especiais, que aliviam a acidez dos materiais.Marcelo AlmeidaPrecariedadeQuando chove, funcionários da Casa da Memória são obrigados a cobrir os documentos - entre eles preciosidades como plantas arquitetônicas de 1913, desenhadas em tecido de linho - com lona plástica, por causa das goteiras e do pó. A dedicação dos funcionários é o que garante um mínimo de cuidadoDimitri do Valle

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