'Açasinando' o português
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quinta-feira, 07 de fevereiro de 2008
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Almoço de domingo. Você está louco para saborear uma massa e decide ir a uma cantina. Ao chegar, pára o carro no ''estasionamento'' e dirige-se ao restaurante. Já acomodado à mesa, você dá uma rápida olhada no cardápio e escolhe a ''lazanha'' de ''beringela'' e ''mangericão'', sua preferida. O prato vem, você se lambuza, paga a conta e vai embora.
No caminho para casa, parado no semáforo, depara-se com o anúncio de um novo condomínio que será construído na cidade. ''Vende-se'' apartamentos: suíte, dependência de empregada, uma vaga na garagem, localizado na Rua ''Goiaz'', região central. Decide dar uma olhada, afinal, o preço das parcelas parece ser convidativo. Depois de fechar o negócio, segue, finalmente, para o conforto do sofá, onde irá tirar uma soneca depois de tanta ''lazanha''. Só amanhã farei os exercícios indicados pelo meu personal ''treiner'', pensa.
Sem querer, o restaurante, a construtora e a academia assassinaram o português. E você nem percebeu. Tão certo quanto dois e dois são quatro, é a falta de atenção do brasileiro quando o assunto é língua portuguesa. Trocam-se ''es'' por ''is'', esquecem-se os acentos, acrescentam-se letras onde não há e a concordância verbal parece nem fazer parte da gramática.
Para Maria Inês Juliani Balan, professora de português em Londrina há mais de 30 anos, o uso da crase, da concordância verbal e da voz passiva são os principais erros cometidos por quem confecciona cardápios, faixas, placas e adesivos na cidade. ''O problema é a falta de estudo. Quem manda fazer tem que ter conhecimento e quem produz também precisa conhecer a língua para corrigir os erros'', opina.
Para a professora, muitos acham que sabem português e outros fazem o serviço com tanta pressa que é mais importante passar a mensagem do que escrever corretamente. ''O brasileiro é muito acomodado, é preciso mais conscientização.''
Segundo Maria Inês, a língua portuguesa é muito rica e cheia de exceções, ''por isso é normal as pessoas se atrapalharem''. Em sala de aula, ela sempre incentivou o uso do dicionário entre os alunos. ''Mas é difícil porque muitos acham uma bobagem.''
''Se eu escrevesse ou falasse alguma coisa errada, gostaria de ser corrigida para poder aprender. Não acho que corrigir o outro seja ruim. Acho que com educação e respeito é válido ensinar algo para alguém'', completa Maria Inês.
Para ela, pais de alunos de escolas particulares cobram mais e orientam os filhos sobre o uso do dicionário. ''Os mais pobres não têm estímulo. Os pais falam errado e é o erro que fica mais evidente, além do fato de as crianças lerem pouco. Mas há exceções em todas as classes sociais'', conclui.
Um empresário londrinense, que prefere não se identificar, confecciona faixas e banners há 15 anos e sempre se depara com erros nos textos trazidos pelos clientes. ''Eu e meus funcionários temos uma boa base de português, então corrigimos os erros e quando temos dúvida, procuramos ajuda da universidade'', diz. A ajuda vem do disk-gramática oferecido gratuitamente por professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O comerciante recebe os pedidos pessoalmente e até por e-mail e antes de executá-los, faz um rascunho da faixa para o pintor não errar. ''É muito raro sair um erro no nosso material porque fazemos a revisão de tudo que produzimos.'' Para ele, quem faz trabalhos mais simples é que costuma errar mais.
''Em Ponta Grossa paga-se multa quando a faixa sai com algum erro de português'', cita o empresário, que acha a medida radical demais. ''Acredito que é preciso orientar para fazer certo porque se divulgamos o português errado, uma criança vê, se acostuma e sai falando errado por ai.''
Deneide Regina Pereira trabalha com a produção de faixas para empresas e veículos, além de adesivos há 11 anos em Londrina e também encontra bastate erro no material recebido dos clientes. ''A gente discute entre si e quando não sabemos a forma correta da palavra, pedimos ajuda ao dicionário on-line'', conta.
Entre os erros mais frequentes estão a falta de acentuação e de atenção na escrita, já que algumas pessoas ''comem'' letras das palavras. ''Já recebemos o pedido de um banner com a palavra pagamento escrita sem n, pagameto.''
O uso correto do porquê também é uma dúvida recorrente entre os funcionários da empresa. ''Confunde bastante, é difícil ter certeza'', admite Deneide, que já ficou sem saber como escrever uma palavra e recorreu ao corretor ortográfico do Word para resolver o problema.
''Às vezes a gente tem que convencer o cliente de que ele está errado e reescrever o material utilizando a forma correta da língua, mas mantendo o sentido da frase.''


